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Namoro: Relacionamento a três

Atualmente tem sido muito comum encontrar jovens feridos, insatisfeitos e até decepcionados com o namoro. Que razão pode haver para tanto descontentamento? Será que o amor verdadeiro é uma ilusão?

Na verdade, de uma forma sorrateira, a mentalidade hedonista – da busca do prazer pelo simples prazer – do mundo de hoje tem privado a muitos de conhecer e experimentar a beleza do autêntico amor humano, dom de Deus. Tem feito especialmente nossos jovens chamarem de amor o que não passa de uma frágil atração física. Tem nos ensinado que homem e mulher precisam constantemente medir forças, que temos de tirar algum proveito do outro e mais algumas aberrações… O grande problema é que esse tipo de relacionamento está muito longe do que Deus pensa sobre o namoro e é definitivamente incapaz de satisfazer a alma humana.

Diante disso, queremos lançar sobre esses jovens um olhar de esperança e dizer: é possível hoje viver um verdadeiro amor! Para isso, olhemos, a partir de agora, o namoro com os olhos do Espírito Santo e peçamos a Ele que arranque qualquer vestígio da mentalidade do mundo que ainda possa haver em nós.

Para começar, tenhamos em mente que, se quisermos usufruir as bênçãos e colher bons frutos de um relacionamento, não podemos queimar etapas. A amizade é necessariamente o primeiro passo. Estreitar os laços, conhecer os pensamentos, os valores, as virtudes e também as fraquezas um do outro. Nunca se contentar com as aparências, mas mergulhar na simples verdade do outro. Essa é uma fase muito gratificante, porque temos a oportunidade de descobrir as grandes riquezas do outro e de lhe revelar as nossas. Vale lembrar que é também um tempo propício ao autoconhecimento, imprescindível a qualquer tipo de relacionamento. É a partir daí que o sentimento começa a tomar forma, a amadurecer. Só então a nossa razão, agora livre de paixões enganadoras, poderá ser capaz de enxergar o que realmente sentimos um pelo outro e de fazer uma opção sensata.

E aí? Estamos prontos para namorar? Calma, ainda falta algo indispensável: conhecer a vontade de Deus. É preciso que os dois estejam atentos à sua Santa Vontade e que haja sempre uma partilha sincera de suas orações. O namoro deve estar sempre embasado no Senhor, caso contrário, será algo desordenado, uma busca de ambas as partes de se satisfazerem da maneira mais egoísta: de serem amados e não de amarem (a ordem dos fatores, neste caso, altera o produto); não existirá lugar para a gratuidade, para as delicadezas e para a feliz renúncia em favor do outro. Sendo assim, podemos concluir sem medo: todo namoro deve ser um relacionamento a três. De um lado, o rapaz, com seu jeito próprio de ser se derrama em amor para com a moça. Por sua vez, a moça, com a delicadeza que lhe é peculiar, busca amar o rapaz como ele é. No centro, Aquele que é a fonte de todo amor: Deus!!!

Agora que estamos aptos para um novo tipo de relacionamento, que tal consagrá-lo a Nossa Senhora? Ela será uma ajuda necessária nos desafios do dia-a-dia. Ninguém melhor que a Mãe de Jesus para nos ensinar a viver a castidade, a dar sem esperar recompensa e a perder para que o outro ganhe. Que mulher admirável recebemos como mãe e que cuidado ela tem pelos que se lhe confiam!

Por fim, recordemos sempre que não há maior amor do que dar a vida por quem se ama. Não é isso que Jesus nos ensina?!

Estamos tendo agora, não só o prazer de escrever sobre um tema tão belo para nós e Deus, mas também a alegria de, nas nossas vidas, testemunhar isto. Passamos por cada fase, vivendo cada etapa, vencendo cada desafio. Hoje, ao olharmos para trás, comprovamos a beleza de viver o tempo de Deus para cada coisa. Pondo este mesmo olhar no presente, testemunhamos a vitória do amor humano elevado à caridade de Cristo nas nossas vidas. E no futuro? Bem, o futuro a Deus pertence, mas com certeza ansiamos um dia estarmos diante do altar selando este tão belo amor que teve início numa amizade…

Efusão do espírito

“Recebereis a força do Espírito Santo que virá sobre vós e sereis minhas testemunhas até os confins da terra” (Atos 1,8) Jesus, desde sua encarnação até a oblação sacerdotal na cruz, cumpriu sua missão, como cordeiro imolado que, com o Seu próprio sangue, conquistou para a humanidade uma redenção eterna ao oferecer-se a Seu Pai, movido pelo Espírito Santo.

“Eis aí o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.O Espírito Santo, presente e operante na MISSÃO DE JESUS é o primeiro fruto do Seu Sacerdócio e do Seu Senhorio. “Exaltado pela direita de Deus e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou-o como vós vedes e ouvis”.(Atos 2,33).

Jesus glorificado, por sua vez derrama o Espírito Santo, pelo poder soberano de Deus, para que a Igreja se abrisse à vida, para que nascesse o novo Povo de Deus, para que se cumprissem as promessas aos antigos profetas e para que ficasse selada para sempre e em toda a sua plenitude a nova Aliança (Ler Jr 31,31-33; Ez 36,27; Is 59,21). Essa plenitude do Espírito Santo foi prometida a todos os que crêem em Jesus como Messias Filho de Deus, Salvador e Senhor.Jesus é o “Pleno do Espírito Santo” e tudo quanto faz, brota dele, é fruto da ação fecunda do mesmo Espírito.

Depois de sua ressurreição e antes de sua ascensão ao céu, Jesus transmite aos seus apóstolos as instruções sobre o Reino de Deus. Recomenda aos apóstolos que não se afastassem de Jerusalém para esperar o cumprimento da Promessa do Pai. “Eis que eu vos mandarei o Prometido de meu Pai. Ele vos recordará todas as coisas”.A promessa do Pai se identifica, pois, com o Espírito  Santo. Com a vinda do Espírito Santo, a missão de Jesus alcançará a sua plenitude. João Batista havia dito: “Eu vos batizo na água, mas vem aquele que é mais poderoso do que eu… Ele vos batizará no Espírito Santo e no Fogo” (Mt 3,11).

Este é o ponto culminante da instrução de Jesus: os discípulos serão batizados no Espírito Santo. “Recebereis a força do Espírito Santo que virá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra” (Atos 1,6-8). Esta afirmação de Jesus é uma chave: “Recebereis a força do Espírito Santo…”

Manifesta assim, a finalidade direta da Efusão do Espírito Santo que os apóstolos irão receber. Serão revestidos de uma força vinda do alto, receberão o Espírito Santo que é uma força divina, uma força de Deus. Será, pois, uma investidura de poder.

Em virtude dessa FORÇA DIVINA, os discípulos poderão, à semelhança de Jesus, plenos do Espírito Santo e no poder desse mesmo Espírito, proclamar a boa nova do Reino de Deus. (Ler Lc 4,1. 14.18.43; At 10,38). Essa mesma força do Alto transformará os missionários em testemunhas de Jesus ressuscitado e o seu campo de ação será o mundo “até os confins da terra…

”Obedecendo à ordem de Jesus, os apóstolos permaneceram em Jerusalém… “Todos perseveravam unânimes na oração com algumas mulheres e Maria, a Mãe de Jesus” (At 1,14).

Ao chegar o dia de Pentecostes, estavam todos reunido no mesmo lugar, o pequeno núcleo de apóstolos com Maria, reunidos, juntos, união comunitário de concórdia, amizade e caridade. “De repente veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam reunidos. Apareceram-lhes então uma espécie de línguas de fogo, que se repartiam e repousaram sobre cada um deles” (At.2,3). Jesus subiu ao céu e de lá vem o Espírito Santo, força de Deus, que Ele havia prometido.

O vento impetuoso encheu toda casa indicando plenitude. As línguas como que de fogo, simbolizavam o Espírito Santo divino, purificador e santificador, que encheria a todos e os faria dar testemunho sobre Jesus, um testemunho como que de fogo.

O fogo, na Bíblia, acusa a presença de Deus. “E pousou sobre cada um deles e ficaram todos cheios do Espírito Santo. E começaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito os fazia proclamar”.(Atos 2,3-4).

Movidos pelo Espírito Santo, os apóstolos começaram a falar em outras línguas e proclamavam “As grandezas de Deus” nos idiomas próprios dos ouvintes.

É a intervenção de Deus, é a ação salvífica de Deus que ressuscitou Jesus Cristo, seu filho, ao qual glorificou e lhe comunicou a plenitude do Espírito Santo.

E Jesus derramou esse mesmo Espírito sobre os apóstolos, transformados pela EFUSÃO DO ESPÍRITO SANTO, começaram a proclamar o testemunho de Jesus de uma forma nova e de maneira diferente, com FORÇA E COM FOGO que o Espírito Santo lhes transmitia.

A proclamação das grandezas de Deus era feita com um entusiasmo particular. Pedro, após a efusão do Espírito Santo, com uma pregação de três minutos, três mil pessoas foram convertidas, tal era a unção e poder em suas palavras. (Ler Atos 2,14-41).

O Espírito Santo está sempre presente na COMUNIDADE CRISTÃ, comunicando-lhe sua “força” e seu “poder” para que seus membros continuem a missão de ser “testemunhas” de Jesus, cheios de alegria…

O orar em línguas é um dos sinais de Efusão do Espírito Santo, mas não é o único e nem o necessário, nem todos receberão este sinal com a efusão.  Pelos sacramentos, recebemos o Espírito Santo, mas continuamos medrosos, com pouca ação, tristes, angustiados, fracos, como os apóstolos antes da Efusão do Espírito Santo.

A promessa do Pai é para todos os que crerem em seu filho Jesus, é, portanto, para todos nós. Todos que desejarem, que buscarem, que pedirem ao Pai, em nome de Jesus, receberão esta plenitude.

“Vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem” (Lc. 11,13). Arrependei-vos e credes no Evangelho.

“Recebestes o Espírito Santo quando abraçastes a fé?” (Atos 19,2). Tomaram conhecimento da Efusão do Espírito Santo sobre os apóstolos, conforme nos relata as escrituras? Precisamos das doações carismáticas do Espírito Santo, para que sejamos testemunhas das grandezas de Deus no mundo de hoje.

O Espírito Santo, a grande promessa do Pai, a alma de toda missão salvífica de Jesus, continuará, impulsionando os missionários de todos os tempos para que continuem levando o testemunho de Jesus até os confins da terra, pois, a BOA NOVA DO EVANGELHO não pode ser detida.

ORAÇÃO: Os apóstolos faziam orações pelos novos fiéis, a fim de receberem o Espírito Santo. Visto que não haviam descido sobre nenhum deles, mas tinham sido somente batizados em nome do Senhor Jesus. Então lhes impunham as mãos e recebiam o Espírito Santo (At 8, 14,17). Ler, meditar o livro dos Atos dos Apóstolos, os textos citados e outros. Orar de preferência em grupo.

Precisamos da comunidade para receber com maior plenitude a Efusão do Espírito Santo: “Senhor Deus, criador do céu e da terra, que prometestes o Espírito Santo a todos que lho pedirem em nome de Jesus, concede a teus servos a Efusão do Espírito Santo para que possamos pregar a tua palavra com toda “força e poder”, para que continuemos a missão de sermos testemunhas de Jesus.”

Frutos que confirmam a Efusão do Espírito Santo em nossas vidas:Com nossa abertura ao Espírito Santo e à sua ação soberana, virão frutos de santidade e carismas para edificar a Igreja.

A vida nova do Espírito Santo gera frutos que se percebem aqui e ali…- Conversão interior radical e transformação profunda de vida;

– Luz poderosa para compreender melhor os mistérios de Deus e seu plano de Salvação;- Novo compromisso pessoal com Jesus Cristo;

– Abertura sem restrição à ação do Espírito Santo;

– Exercício ativo das virtudes teologais: fé, amor, esperança;

– Entrega generosa ao serviço dos demais, dentro da Igreja;

– Gosto pela oração e amor à Sagrada Escritura;

– Busca ardente dos sacramentos da reconciliação e da Eucaristia;

– Revalorização da missão da Virgem Maria no plano da redenção;

– Amor à Igreja e suas instituições;- Força divina para dar testemunho de Jesus em toda parte;

– Anseio de um ilimitado campo de apostolado…

A Efusão do Espírito Santo é, portanto uma investidura de poder, não é um sacramento. O homem torna-se cristão mediante um processo que compreende:

– Conversão e a fé em Jesus Cristo;

– Recepção dos sacramentos de iniciação; batismo, confirmação, eucaristia. Todo aquele que recebeu os sacramentos da iniciação cristã torna-se Filho de Deus, foi incorporado a Cristo morto e ressuscitado, recebem o dom do Espírito Santo e pode participar da Eucaristia, banquete da Nova Aliança.A oração para “Efusão do Espírito Santo”, geralmente feita mediante a imposição de mãos, num gesto sensível de amor fraterno, consiste na oração, cheia de fé e esperança, que uma comunidade eleva a Jesus glorificado para que derrame seu Espírito, de maneira nova e em maior abundância, fazendo surgir na criatura um relacionamento novo com o Espírito Santo, para realizações das “Missões Divinas”.

(Palestra baseada nos livros: Renovação no Espírito Santo e O Espírito Santo na Igreja dos Atos dos Apóstolos, de Salvador Carrilho Alday, pela equipe de Comunicação da RCC).

Fonte: Com. Shalom

Seitas: Uma grande mentira

Não bastassem o colapso do sistema imobiliário, o naufrágio da indústria automobilística e o mergulho na recessão, os americanos estão agora às voltas com uma vigarice monumental. Bernard Madoff, um figurão de Wall Strett, sumiu com 50 bilhões de dólares de seus clientes. Na delegacia para onde foi levado na semana passada e da qual saiu sob fiança, ele admitiu ter montado um gigantesco esquema tipo pirâmide – o mais manjado dos golpes financeiros. Consiste em remunerar os clientes mais antigos com o dinheiro dos novos investidores, sem produzir rendimentos reais.

Madoff, que foi presidente da Nasdaq, a bolsa das empresas de tecnologia, oferecia retornos estáveis de 10% e 12% ao ano para o capital investido, independentemente dos altos e baixos do mercado. Nem mesmo a crise econômica havia batido às suas portas: seus investimentos cresceram 5,6% até novembro, enquanto o valor de mercado das empresas nas quais ele supostamente investia tinha encolhido 37,7%.

O esquema veio abaixo, como um castelo de cartas, quando clientes, de caixa baixa devido à crise, quiseram retirar 7 bilhões de dólares no começo deste mês. O próprio Madoff avisou os filhos de que tudo não passava de “uma grande mentira”. (1).

O grande intelectual inglês, autor da obra clássica Ortodoxia G. K. Chesterton (1874-1936), escreveu: “Acreditar absolutamente em si mesmo é uma crença tão histérica e supersticiosa como acreditar em Joanna Southcote (1750-1814). Ela se dizia virgem e grávida do novo Messias, e chegou a ter muitos seguidores”.

O fundador da Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade (Soust), Inri Cristo que garante ser nada menos que a reencarnação de Jesus e prega sua mensagem conforme o figurino bíblico: túnica branca, manto vermelho, sandálias de couro e coroa de espinhos.

A quem pensa que tudo não passa de um grande teatro escreve o jornalista Bernardo Mello Franco, mas segundo o teólogo Edson Martins, que defendeu tese de doutorado sobre os seguidores de Inri na Universidade Metodista de São Paulo, garante que a devoção é real e afirma: “O movimento dele pode parecer bizarro, mas a fé dos seguidores não difere muito das outras religiões. Eles acreditam mesmo”.

A grande mentira pregada por muitas seitas é a salvação das pessoas no profetismo do líder e de seus ensinos. Fora da sua seita não há salvação e nem felicidade.

Autoritarismo, exclusivismo e detentor de ‘toda verdade’ são características fundamentais das seitas.

NINGUÉM VOS ENGANE

No discurso escatológico de nosso Senhor Jesus Cristo, os discípulos perguntam: “Qual o sinal da tua vinda e da consumação dos tempos? Jesus respondeu: “Atenção para que ninguém vos engane”. “Pois muitos virão em meu nome, dizendo: o Cristo sou eu, e ENGANARÃO A MUITOS”. “Pois hão de surgir falsos Cristos e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios de modo a enganar, se possíveis, até mesmo os eleitos”. Eis que eu vo-lo predisse” (Mt 24,1-24).

A arte de enganar vem desde o princípio da humanidade, tendo como autor o diabo, o pai da mentira (Gn 3,13; Jo 8,44).

A mentira como fundamento para toda arte do inimigo, só encontra valia na conexão com a ganância, ambição, idolatria e todo tipo de poder pecaminoso.

Três terríveis pecados pretendem dominar completamente o ser humano: a ganância de possuir muito dinheiro, o prazer desenfreado da luxúria e o desejo ardente de ser adorado como um deus.

Tudo isso pode conseguir criando uma seita. É muito fácil enganar o povo em nome de Deus. Uma seita ‘pode’ esconder todo tipo de crimes. Os líderes sectários sabem que não existe da parte do governo: municipal, estadual e federal uma fiscalização a rigor e permanente de suas atividades.

São sabedores dos fins obscuros das seitas poucos intelectuais, estudiosos da matéria e algumas autoridades competentes.

A nossa missão é esclarecer o povo sobre o perigo de certas seitas e conclamar as autoridades para uma maior atenção e averiguação dessas facções religiosas.

Diante de tantas seitas, não podemos ser ingênuos! Muita gente é usada e abusada de sua fé por seitas que vêem as pessoas como mercadorias.

São Paulo Apóstolo sabia e nos alerta sobre esses movimentos religiosos e suas táticas proselitistas: “Sabe, porém, o seguinte: nos últimos dias sobrevirão momentos difíceis. Os homens serão egoístas, gananciosos, jactanciosos, soberbos, blasfemos, rebeldes com os pais, sem afeto, mentirosos, incontinentes, cruéis, traidores, mais amigos dos prazeres do que de Deus; guardarão as aparências de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Afasta-te também destes”.

“Entre estes se encontram os que se introduzem nas casas e conseguem cativar mulherzinhas carregadas de pecados, possuídas de toda sorte de desejos, sempre aprendendo, mas sem jamais poder atingir o conhecimento da verdade. Do mesmo modo como Janes e Jambres se opuseram á Moises, assim também estas se opõem à verdade; são homens de espírito corrupto, de fé inconsistente. Mas eles não irão muito adiante, pois a sua loucura será manifesta á todos, como o foi daqueles” (2 Tm 3,1-9).

CONCLUSÃO

Há um grande favorecimento para o crescimento da mentira sectária. A propaganda é violenta pela televisão, rádio, cinema, internet, revistas, livros, jornais, lojas, templos suntuosos e partido político. Tudo isso facilita chegar ao povo o engano da falsa doutrina cristã, a falsa prosperidade, promessas de curas, milagres, exorcismos, solução para todos os problemas e o céu mediante os dízimos e ofertas.

Cresce junto com o avanço da ciência e da tecnologia todo tipo de crises e a tamanha ignorância das pessoas.

Vivemos o mundo dos paradoxos e da estupidez.

As seitas não só trabalham pela via da lavagem cerebral como também pela mente esturricada.

Cabe aos profissionais sérios e de boa vontade ajudar as pessoas em seu momento de crises – principalmente afetiva – encontrarem caminhos, ferramentas, alívio, consolo, equilíbrio e segurança na sua potencialidade em Jesus Cristo e na medicina.

É nosso dever mostrar o Cristo verdadeiro, o Cristo Filho de Deus, de Maria, o crucificado e ressuscitado, amigo dos apóstolos, amigo de Maria Madalena, da família de Lázaro, companheiros das nossas dores e curas, das nossas tristezas e alegrias, daqueles que ganham e dos que perdem, dos que vão e dos que ficam.

Infelizmente, o povo conhece o Cristo da propaganda, sectário e da auto-ajuda.

Por incrível que pareça ainda hoje muita gente precisa conhecer e ter um encontro definitivo com o Cristo dos Santos Evangelhos.

Pe. Inácio José do vale

Professor de História da Igreja

Faculdade de teologia de Volta Redonda.

A intercessão como arma de ataque e defesa

“Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os Principados e Potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12).

 

O inimigo de nossas almas vive em constante batalha, para levar a efeito os seus planos diabólicos, aproveitando-se do desconhecimento de muitos, que pela falta de intimidade com Deus, despreza a Armadura do Senhor deixada a nossa disposição, com a qual estaremos revestidos para o embate contra o inimigo.

 

A Igreja de Cristo, tendo como principal Missão, dar continuidade da Obra que Jesus iniciou (I Jo 3.8b), necessita agora de um revestimento espiritual para assumir o seu papel de intercessora, tendo em vista a importância das suplicas e orações em favor dos necessitados “Muito pode, por sua eficácia, as suplicas dos justos” (Tg 5.16). Desta forma, iremos considerar alguns aspectos que demonstram a eficácia da intercessão como eficiente arma de ataque ao adversário de nossas almas.

 

Se quisermos ter vitórias no mundo espiritual, precisamos conhecer o nosso adversário, contra quem estamos em constante batalha. Segue abaixo uma ilustração sobre o que seria uma reunião no inferno:

 

UMA REUNIÃO NO INFERNO

 

Satanás: Amigos vamos discutir sobre os cristãos comprometidos com Jesus. Vocês sabem que eles se reúnem para orar, e isso tem que ser evitado.

 

Lúcifer: Concordo. Que cosa detestável é a oração! Temos que acabar com a oração dos justos. Elas podem muito em seus efeitos!

 

Apesar de tudo que já fizemos, enquanto dois ou três se reunirem para orar, corremos perigo!

 

Espírito de Preguiça: Quero contribuir. Vou sugerir que as reuniões sejam em lugares distantes ou que o tempo não está bom ou ainda que bons filmes estarão passando na TV, e assim impeço que os cristãos se reúnam para orar.

 

Espírito de Dúvida: Lançarei a duvida quanto às promessas da Palavra de Deus!

 

Espírito de Profanação: Eu farei com que alguns não prestem atenção e fiquem cochichando e brincando durante o culto!

 

Espírito de Comodismo: Darei o meu auxilio fazendo com que alguns pensem que não precisam ir a igreja, que podem orar e aprender a sós, em suas casas.

 

Espírito de Suspeita: Vou semear a desconfiança fazendo com que alguns se julguem esprezados e menos importantes na igreja, e assim deixem de freqüentá-la.

 

Espírito de Engano: Eu me encarrego de iludir alguns, fazendo-os pensar que são melhores, mais santos, e os deixarei mais preocupados em se mostrar para os homens do que para cultuar a Deus.

 

Satanás: Vamos destruí-los acabando com as assembléias dos santos (surge um espírito vindo da terra)

 

Espírito Mensageiro de satanás: Trago péssimas noticias. Alguns intercessores  sinceros e dedicados assumiram o compromisso de orar independente de qualquer circunstancia.

 

Lúcifer: Mas é pouca gente. “Uma andorinha só não faz verão”.

 

Satanás: São poucos, mas é gente que crê! E se eles crêem, nada podemos fazer! Mais cedo ou mais tarde, pela fé, conseguem transformar a situação que provocamos! Nada podemos fazer contra a fé dos que amam a JESUS…

 

E a reunião acabou…

 

Esta é uma ilustração que mostra o quanto o inimigo trabalha de forma articulada contra a Igreja de Cristo, nos exortando a estar sempre vigilantes.

 

CARACTERÍSTICAS DE UM INTERCESSOR

 

Unção. Todo intercessor precisa possuir a unção de Deus. Em Atos 1.8 está escrito: “Mas recebereis Poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra”.

A palavra UNGIR, significa capacitar, autorizar, habilitar a uma pessoa para que faça algo. Esta unção irá diferenciar o intercessor daqueles que apenas oram por alguma necessidade, uma vez que sua condição não lhe permite cessar de interceder enquanto não obtém a resposta ao seu clamor. O intercessor sente o peso da necessidade em sua alma, o que faz com que considere, sempre, a urgência do ministério que lhe foi atribuído pelo Senhor.

 

Santificação e Consagração. Estas são armas de defesa de um intercessor (II Tm 2.21) “De sorte que, se alguém se purificar dessas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para o uso do Senhor e preparado para toda boa obra”. Deus, jamais usará um intercessor despreparado, indisciplinado, desorganizado, sem consciência do que realmente significa a Obra para a qual foi chamado.

 

Para ser um intercessor segundo o coração de Deus, é fundamental um viver santo, que é a característica de todos os servos e servas do Senhor. “Santificai-vos, porque amanhã farei maravilhas no meio de vos” (Josué 3.5).

 

Discernimento. Todo intercessor precisa empunhar em todo tempo essa Arma de Defesa. O Senhor Jesus a usava constantemente, por esta razão sempre foi vitorioso nos confrontos com as forças espirituais opositoras. O discernimento é um Dom do Espírito Santo para perceber o que está no espírito do homem. Seu propósito é ver o que está oculto dentro da natureza humana. “A teu servo, pois, dá um coração entendido para julgar o teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal…” (I Rs 3.9).

 

Jejum. É uma Arma de Apoio para o intercessor. Através dele, mortificamos a carne e fortalecemos o espírito, nos tornando mais aptos para a batalha espiritual.

 

  • O Povo de Israel obteve grandes vitórias (I Sm 7.6)

 

  • A Palavra profética exorta promover o jejum (Jl 1.14)

 

  • Foi praticado por Moises (Ex 34.2)

 

  • Daniel foi vitorioso porque jejuou (Dn 10.3)

 

  • Os líderes da Igreja de Cristo devem jejuar.

 

A IMPORTANCIA DA AMADURA DE DEUS (Ef 6.10-18)

 

1 – O Cinto da Verdade

 

  • Ele é o principio – a primeira de todas as coisas

 

  • Ele combate toda mentira, falsidade e engano

 

  • A verdade nos diz quem somos e quem é o inimigo

 

  • A verdade nos dá uma visão correta dos campos de batalha

 

  • A verdade cingida nos lombos nos dá firmeza na hora da batalha

 

  • Ela triunfa de forma final e total sobre os inimigos

 

  • Ela está ligada ao caráter e com ele se relaciona.

 

2 – A Couraça da Justiça

 

  • Serve de proteção eficaz contra os ataques do inimigo

 

  • Sem a justiça a armadura fica vulnerável

 

  • A verdade atua no íntimo, a justiça no exterior

 

  • Ela cobre os órgãos vitais do corpo e os protegem

 

  • É a própria justiça de Deus que nos dá proteção

 

3 – O Evangelho da Paz

 

  • Com os pés desprotegidos os soldados não podem caminhar

 

  • Exercito que marcha vitoriosamente deixando marcas de paz

 

  • Se faz presente onde deus enviar

 

  • É conduzido no caminho da retidão

 

  • Significa prontidão, ordem, submissão e atenção.

 

4 – O Escudo da Fé

 

  • Protege o soldado da cabeça aos pés

 

  • Revela uma postura espiritual adequada

 

  • Neutraliza e destrói totalmente os dardos do inimigo

 

  • Revela as convicções da alma do intercessor

 

  • Cresce, agiganta-se, quanto mais for utilizado.

 

5 – O Capacete da Salvação

 

  • A Cabeça “mente” é alvo prioritário do inimigo

 

  • As crises de consciência têm que estar resolvidas

 

  • De forma alguma os soldados podem “perder a cabeça”

 

  • É impossível batalhar sem o capacete

 

  • Consciência, certeza, confiança e convicção da salvação.

 

6 – A Espada do Espírito (Arma de Ataque)

 

  • Como Espada ela fere, corta, penetra e mata (He 4.12);

 

  • Como fogo ela aquece, ilumina, queima e devora (Jr 23.29);

 

  • Como Água ela limpa, purifica e mata a sede (Ef 5.26);

 

  • Como Luz ela expulsa as trevas, e traz calor (Sl 119.105);

 

  • Como Medicina ela cura, restaura e dá vigor (Sl 107.20);

 

  • Como Pão Espiritual ela fortalece e dá vida (Mt 4.4).

 

7 – Vigilância e Oração (Arma de Ataque e Defesa)

 

  • O Espírito Santo nos ajuda na oração (Rm 8.26-27);

 

  • Ela sobe como incenso ao Senhor (Ap 8.3);

 

  • Quando oramos elevamos a alma ( Sl 5.1);

 

  • Orar e derramar o coração diante do Pai (Sl 62.8);

 

  • Pela oração nos chegamos a Deus (Hb 10. 22);

 

  • Orar é implorar ao Senhor a benção Divina (Êx 32.11).

 

EXEMPLOS BÍBLICOS DE INTERCESSORES

 

Neemias. Inconformado com a situação da sua cidade deixou a zona de conforto no Palácio real e foi interceder por Jerusalém. Ele ouviu o chamado de Deus e se propôs a fechar as brechas dos muros da cidade em ruínas (Ne 1.1-11).

 

Daniel. Levado ao cativeiro, assumiu a postura de intercessor de seu povo e, através do jejum e oração experimentou vitórias (Dn 1.1-21; 9.21-23; 10.2).

 

Jeremias. Lamentou, orou e intercedeu pelo seu povo (Jr 8.18-22; 9.1).

A luta contra o poder das trevas

A queda dos anjos maus

“Tu, desde o principio, quebraste o meu jugo, rompeste os meus laços e disseste: — Não servirei!” (Jor 2,20) DEUS CRIOU OS ANJOS num alto estado de perfeição natural e além disso os elevou à ordem sobrenatural. É de fé que todos os espíritos angélicos foram criados bons.*

*Essa é uma conseqüência obrigatória da verdade de fé, de que todos os espíritos angélicos foram criados por Deus, atestada pelo símbolo niceno-constantinopolitano

( o Credo da Missa), o qual proclama: “Creio em Deus Pai Todo-poderoso, criador … das coisas visíveis e invisíveis”; essa verdade foi ainda definida nos Concílios IV de Latrão e I Vaticano.

A Sagrada Escritura, com efeito, chama-os “filhos de Deus” (Jó 38, 7), “santos” (Dan 8, 13), “anjos de luz” (2 Cor 11, 14). Entretanto, os próprios Livros Sagrados se referem a “espírito imundos” (Lc 8, 29); “espíritos malignos” (Ef 6, 12); “espíritos piores” (Lc 11, 26); e outras expressões análogas. Isto indica que certos anjos tornaram-se maus, tiveram

sua vontade pervertida. Em suma: pecaram.

A batalha no Céu

“Tu, desde o princípio, quebraste o meu jugo, rompeste os meus laços e disseste: — Não servirei!” (Jer 2, 20). Este versículo do Profeta Jeremias sobre a revolta do povo eleito contra Deus tem sido aplicado à revolta de Lúcifer. M de rebelião de Lúcifer “Não servirei!” — respondeu São Miguel com o brado de fidelidade: “Quem é como Deus!” (significado do nome Miguel em hebraico). No apocalipse, São João descreve essa misteriosa batalha que então se travou no céu: “E houve no céu uma grande batalha: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o dragão, e o dragão com os seus anjos pelejavam contra ele; porém estes não prevaleceram e o seu lugar não se achou no céu.        E foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga serpente, que se chama o Demônio e Satanás, que seduz todo o mundo; e foi precipitado na terra e foram precipitados com ele os seus anjos” (Apoc 12,7-9).

O próprio Jesus dá testemunho dessa queda: “Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago” (Lc 10, 18). “(O Demônio) foi homicida desde o principio, e não permaneceu

na verdade” (Jo 8,44).

Os anjos podiam pecar

Como poderia o anjo ter pecado, uma vez que ele não está sujeito às paixões ou ao erro no entendimento, como nós homens? “Como compreender semelhante opção e rebelião a Deus em seres de tão viva inteligência?” — pergunta João Paulo II. O Pontífice responde: “Os Padres da Igreja e os teólogos não hesitam em falar de cegueira, produzida pela supervalorização da perfeição do próprio ser, levada até o ponto de ocultar a supremacia de Deus, a qual exigia, ao contrário, um ato de dócil e obediente  ubmissão. Tudo isto parece expresso de maneira concisa nas palavras: “Não servirei” (Jer 2, 20), que manifestam a radical e irreversível rejeição de tomar parte na edificação do reino de Deus no mundo criado. Satanás, o espírito rebelde, quer seu próprio reino, não o de Deus, e se levanta como o primeiro adversário do Criador, como opositor da Providência, antagonista da sabedoria amorosa de Deus” (Apud Mons.C. BALDUCCI, El díablo, p. 20.).

E o Papa explica que os anjos, por serem criaturas racionais, são livrs, isto é, têm a capacidade de escolher a favor ou contra aquilo que conhecem ser o bem: “Também

para os anjos a liberdade significa possibilidade de escolha a favor ou contra o bem que eles conhecem, quer dizer, o próprio Deus”. (João Paulo II, Mcm, ibidem.) Criando os anjos racionais e livres, quis Deus que eles – com o auxílio da graça — fossem os agentes de sua própria felicidade ou de sua perda, caso cooperassem ou resistissem à graça.      Para que merecessem a felicidade eterna, submeteu-os a uma prova. É de fé que todos os espíritos angélicos foram submetidos a uma prova. Entretanto, não sabemos qual teria

sido essa prova. Os teólogos procuram excogitar qual teria sido.

O pecado dos anjos maus

Qual teria sido a prova a que foram submetidos os anjos? E qual teria sido o pecado dos que sucumbiram à prova?

Um pecado de soberba

Acredita-se comumente que tenha sido um pecado de orgulho, de soberba, pois a Escritura diz que “foi na soberba que teve início toda a perdição” (Tob 4, 14). Santo Atanásio (séc. IV) o afirma explicitamente: “O grande remédio para a salvação da alma é a humildade.

Com efeito, Satanás não caiu por fornicação, adultério ou roubo, mas foi o seu orgulho que o precipitou ao fundo do inferno. Porque ele falou assim: “Eu subirei e colocarei meu trono diante de Deus e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14, 14). E é por essas palavras que ele caiu e que o fogo eterno se tornou sua sorte e sua herança”.(Apud Card. P. GASPARRI, Catechisme Catholique pour Adultes. p. 345.)

Em que teria consistido essa soberba?

Segundo São Tomás de Aquino, essa soberba consistiu em que os anjos maus desejaram diretamente a bem-aventurança final, não por uma concessão de Deus,

por obra da graça, e sim por sua virtude própria, como mera decorrência de sua natureza. Desse modo, quiseram manifestar sua independência em relação a Deus; eles recusaram

assim a homenagem que deviam a Deus como seu criador e desejaram substituir-se a Ele e ter o domínio sobre todas as coisas: ser como deuses (cf.Gen 3,5).

São Tomás faz igualmente referência à seguinte passagem de Isaías — referente ao rei de Babilônia, mas geralmente aplicada a Satanás — para ilustrar o pecado dele e dos anjos maus que o acompanharam na revolta: “Como caíste do céu, ó astro brilhante [em latim: “Lúcifer”J, que, ao nascer do dia brilhavas? … Que dizias no teu coração: … serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14, 13-14).

O pecado de Lúcifer e dos anjos que se revoltaram com ele teria sido, pois, um pecado de soberba, ou seja de complacência na própria excelência, com menoscabo

da honra e respeito devidos a Deus.Estes elementos se encontram em todo pecado —

explica o Pe. Bujanda — pois quem ofende a Deus prefere a própria vontade, em vez da vontade divina, e nela se compraz.

Revelação da Encarnação

Não está formalmente revelado no que consistiu exatamente a prova dos anjos; os teólogos fazem hipóteses teológicas, como a de São Tomás, exposta acima. Francisco Suárez, teólogo jesuíta do século XVII, levanta outra hipótese: a prova dos anjos teria consistido na revelação antecipada por Deus, da Encarnação do Verbo. Os anjos maus se teriam revoltado contra a submissão em que ficariam em relação à natureza humana do Verbo Encarnado, a qual, enquanto natureza, seria à natureza angélica.

Uma variante dessa hipótese é a que afirma que Lúcifer e os anjos revoltados não quiseram submeter-se à Mãe do Verbo Encarnado, pela sua dignidade ficaria colocada

acima dos próprios anjos, embora inferior a eles por natureza.

Essa hipótese, entretanto, está ligada a uma outra questão: se o Verbo se teria encarnado mesmo sem o pecado de Adão. Suárez, com algumas adaptações, segue a opinião de Duns Escoto e de Santo Alberto Magno, a qual sustenta que sim; São Francisco de Sales também participa dessa opinião.

São Tomás, porém, é de outro parecer. Argumenta ele: “Seguindo a Sagrada Escritura, que por toda a parte apresenta como razão da Encarnação o pecado do primeiro homem, é conveniente dizer-se que a obra da Encarnação está ordenada por Deus como remédio contra o pecado. De tal modo que, se não existisse o pecado não teria havido a Encarnação, embora a potência divina não esteja limitada pelo pecado, podendo, pois, Deus encarnar-se, mesmo que não houvesse o pecado” (Suma Teológica,

3, q. 1, a. 3.) São Boaventura reconhece que a opinião tomista é mais consoante com a Fé, enquanto a outra favorece mais a razão. (In III Sent.,Dist.I,a.2,q.2.)

Embora ambas as opiniões sejam sustentáveis, o comum dos Doutores acha que a hipótese tomista é mais provável, sendo predominante entre os Santos Padres. Santo Agostinho afirma: “Se o homem não tivesse caído não se teria feito carne” (Serm. 174,2.)

Em favor dela fala igualmente o Símbolo dos Apóstolos, isto é, o Credo, quando proclama: “O Qual [o Verbo], por nós homens, e por nossa salvação, desceu dos céus

“ Também a liturgia pascal, que canta: “Ó culpa feliz, que nos mereceu um tal Redentor!”

O Pe. Christiano Pesch S.J. diz que a posição tomista de tal modo se tornou comum, que hoje há poucos defensores da esposada por Suárez, quanto à Encarnação do Verbo.

Daí decorreria que a hipótese de Suárez com relação ao pecado dos anjos ficaria também prejudicada. (C. PESCH 53, De Angelis, III, p. 71; cf. também Mons. P. PARENTE. Incarnazioni, col 1.751; I. SOLANO, De Verboincarnato, pp. 15-24).)

A obstinação dos demônios

Nós homens temos certa dificuldade psicológica em compreender que os demônios, por um só pecado, tenham sido condenados eternamente, enquanto Adão e Eva puderam ser perdoados. Por isso, desde os primeiros tempos do Cristianismo, não faltaram autores que sustentaram a possibilidade de reconciliação dos anjos decaídos com Deus.

Essa doutrina foi condenada pela Igreja e São Tomás explica a razão pela qual isso não é possível: em primeiro lugar porque a prova a que os anjos foram submetidos,

a fim de merecerem a bem-aventurança eterna, teve para eles o mesmo efeito que tem para nós homens a morte; ou seja, encerra o período em que podemos adquirir méritos, e   nos introduz na vida eterna, imutável por natureza. Os anjos bons, tendo sido fiéis, passaram a gozar da bem-aventurança eterna; os anjos maus ou demônios foram precipitados no inferno por toda a eternidade.

Em segundo lugar, por causa da natureza angélica: os anjos, uma vez feita uma escolha, não podem voltar atrás, seja para o bem, seja para o mal. Porque eles não

estão sujeitos à mobilidade das paixões humanas, sua inteligência é perfeita, de modo que eles não podem fazer escolhas provisórias, como o homem. Antes de fazer uma

escolha, o anjo é perfeitamente livre; feita esta, sua vontade adere a ela para sempre, pois todas as razões que o levaram a fazer essa escolha já estavam perfeitamente

claras para ele antes que a fizesse.

O lugar de condenação dos demônios

O Inferno

A tremenda realidade do inferno, como lugar criado para os e os demônios e os precitos, é atestada pelo Divino Salvador ao falar do Juízo Final: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o Demônio e para os seus anjos” (Mt 25,41). São Pedro ensina que Deus não perdoou aos anjos que pecaram prepitou-os no tártaro, para serem atormentados (2 Ped 2, 4). E São Judas escreve que Deus “prendeu em cadeias eternas, no seio das trevas “, os anjos prevaricadores (Jud v. 6).

Assim como o lugar para os anjos bons é o Céu, para os demônios é o inferno. Mas os demônios têm dois lugares de tormento: um em razão de sua culpa, que é o inferno; outro, em função das tentações a que submetem os homens: a atmosfera tenebrosa, pelo menos até terminar o mundo.

Os demônios dos ares

A doutrina de que os demônios vagueiam pelos ares para tentar os homens é claramente afirmada por São Paulo na Epístola aos Efésios: “O príncipe que exerce

o poder sobre este ar … os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelos ares” (Ef 2,2; 6, 12). E é confirmada pela Igreja, por exemplo, na oração

a São Miguel Arcanjo, que o Papa Leão XIII compôs e mandou recitar ao fim da Missa, na qual invoca o Príncipe da milícia celeste, para que — pelo divino poder — precipite

no inferno “ a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas”.

A “hierarquia” entre os demônios

Entre os demônios existe urna “hierarquia”, que decorre do fato de, sendo anjos, uns terem a natureza mais perfeita do que outros. Por isso se diz que Satanás é o príncipe, o chefe dos demônios. Não que exista entre eles uma submissão por amor ou respeito, como na verdadeira hierarquia; os demônios se odeiam muituamente e só se unem circunstancialmente para atormentar os homens. É o mesmo que — explica São Tomás — se dá entre os homens maus: eles formam quadrilhas e se submetem a um chefe, apenas como meio de melhor cometerem seus roubos ou homicídios contra os homens honestos ( Suma Teológica, 1,Q. 109, A.1-2. )

Os nomes dos demônios

Os judeus não tinham uma palavra específica para indicar os espíritos malignos; a designação geral de demônio para os anjos decaídos vem da versão grega do Antigo Testamento. A palavra daimon, entre os gregos, designava os seres com forças sobre-humanas, especialmente os maléficos. A palavra hebráica sâtân significa adversário, acusador; Satanás, o chefe dos demônios, é também conhecido nas Escrituras como Diabo (do grego diábolos, que quer dizer caluniador).

Nas Sagradas Escrituras aparecem os nomes de vários demônios: Azazel, demônio que habita o deserto (Lev 16, 8-10, 26); Asmodeu, que matou os sete maridos de Sara (Tob 3, 8); o nome Belzebu ( ou Beelzebul, cuja significação parece ser “deus do esterco”, nome com que os rabinos indicariam os sacrifícios oferecidos aos ídolos ) é apresentado como sinônimo para Satanás ou príncipe dos demônios (Mt 12, 14; Mc 3, 22-26); Lúcifer foi palavra escolhida na Vulgata* para traduzir para o latim a expressão“astro brilhante” ou “estrela brilhante”, da profecia de Isaías (Is 14, 12), que costuma ser interpretada como

uma referência à queda do Demônio; em geral esse apelativo é utilizado igualmente como sinônimo de Satanás.

* Chama-se Vulgata a tradução latina da Bíblia feita em grande parte por são Jerônimo, que iniciou seu trabalho por volta do ano 384. Essa tradução latina foi aperfeiçoada por iniciatiiva da santa Sé, dando origem a chamada Vulgata Sixto-Clementina publicada em 1592 pelo Papa Clemento VIII, em uso ainda hoje.

Psicologia do demônio

“Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade é mentiroso e pai da mentira”.(Jo 8,44)

Com base nas Sagradas Escrituras e em outras fontes, poderíamos ressaltar alguns aspectos da psicologiade Satanás e seus anjos malignos. Embora os demônios sejam diferentes entre si, assemelham-se em seu desejo de fazer o mal e em sua natureza decaída; por isso o que é dito a respeito de Satanás, seu chefe, pode-se dizer dos outros demônios.

Uma vontade pervertida

Os demônios, puros espíritos, como anjos que são, não têm as fraquezas e as debilidades dos homens; de onde, sua revolta contra Deus ser permanente, imutável,

eterna. Sua vontade, deixando de ter como objeto o Sumo Bem, tornou-se uma vontade pervertida fixada no mal. Dessa forma, os demônios não desejam senão o mal em todos os seus atos voluntários, e mesmo quando fazem algum bem (como, por exemplo, restituir a saúde a alguém, obter-lhe riquezas ou ensinar-lhe algo), fazem-no apenas

para dai tirar o mal, conduzir a pessoa à perdição eterna, que é a única coisa que almejam para os homens.

Tendo sido criados bons por Deus, sua natureza ainda continua boa em si mesma; porém, eles se tornaram seres pervertidos em sua vontade, buscando nãomais seu fim último, que é o serviço e a glória de Deus, mas justamente o contrário, isto é, tudo fazer para impedir que Deus seja glorificado. Não podendo atingi-Lo diretamente, eles procuram agir sobre as criaturas de Deus, na medida em que Ele o permite.

Homicida e mentiroso Astuto, falso, enganador

O divino Redentor resumiu em poucas palavras essa psicologia diabólica: “Ele foi homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade; porque a verdade não está nele; quando ele diz a mentira,fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44). O demônio é homicida e o pai da mentira, o mentiroso por excelência que odeia a verdade, porque a verdade nos conduz a Deus: “Eu sou o caminho, a verdade, a vida” (Jo 14, 5); ele odeia o Criador e, tendo-se separado de Deus, separou-se para sempre da verdade e da vida. E através da mentira que ele dá a morte, a morte espiritual.

Santo Agostinho, a respeito da afirmação de Jesus de que o demônio é homicida e mentiroso, comenta: “Perguntamosde onde veio ao diabo o ser homicida desde o

princípio, e respondemos que matou o primeiro homem, não enterrando-lhe o punhal ou infligindo-lhe qualquer outro dano no corpo, senão persuadindo-o a que pecasse

precipitando-o da felicidade do paraíso”. (Apud J. MALDONADO S.J., Comentarios a los Cuatro Evangelios, p. 563) Pe. João Maldonado, erudito exegeta jesuíta do século XVI, observa sobre essa mesma frase – “Porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44): “A maior parte dos autores entendem isto daquelas palavras que o diabodisse a Eva: ‘Sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.’ (Gen 3, 5); palavras em que evidentemente mentiu; quer dizer, uniu a mentira com o homicídio (espiritual), perpetrando os dois crimes ao mesmo tempo.

Chama-se ao diabo pai da mentira porque é ele o autor e inventor da mesma, de tal modo que pode dizer-se que deu à luz a ela” (J. MALDONADO S.J., op. cit., pp. 564-566) Quando tenta o homem, procurando afastá-lo de Deus, ele mente apresentando uma falsa imagem da realidade, escondendo seus verdadeiros fins e enredando sua vítima no engano, no sofisma e na falsidade.

Ele é astuto, falso, enganador.

“Satanás se distingue por sua astúcia — escreve Mons. Cristiani. O que quer dizer esta palavra? A astúcia é um artifício enganador. O ser que age por astúcia tem más

intenções. Se ele fala, não é para dizer a verdade, mas para enganar, para conduzir ao erro, à inverdade. Satanás é falso. Não se pode confiar nele. O que falta antes de tudo

nele é a eqüidade, a lealdade, a franqueza. Ele é equivoco, voluntariamente obscuro e dissimulado” (Mgr L. CRI5TIANI, Présence de satan dons le monde moderne, p. 306.)

Soberba demencial, inveja mortal

Por detrás dessa dissimulação se esconde o seu desejo oculto, assim expresso por Mons. Cristiani: “Ser como Deus! Este ato de orgulho é o fundo mesmo da psicologia de Satanás! … ‘Vós sereis como deuses!’ Ele próprio, na sua queda, se considera como um deus. Seu orgulho não está morto. O orgulho levado até à adoração de si mesmo é o que faz o demônio voltar-se contra o Criador. É o orgulho que, tendo-o afastado de Deus, fez

dele o Adversário. No livro do Eclesiástico esta consequência do orgulho é posta em evidência: ‘O princípio do orgulho é abandonar o Senhor e ter seu coração afastado do

Criador, porque o princípio do orgulho é o pecado, aquele que se entrega a ele espalha a abominação.‘ (Ecli 10, 12-13). … Compreendemos, então, porque Jesus Cristo, que é

a Via, a Verdade, a Vida, tenha definido Satanás como o Pai da mentira, o homicida desde o começo. E, para nós, este termo de homicida longe de ser excessivo, não diz senão um aspecto da verdade total: Satanás é, com efeito, acima de tudo, o DEICIDA!” (Mgr L. CRISTIANI, op. cit., p. 308.)

O orgulho de Satanás e seus anjos malignos não conhece limites: “Que orgulho demencial — comenta ainda Mons. Cristiani — nessa palavra de Satanás a Cristo,

mostrando-lhe em espírito todos os reinos da terra: ‘Tudo isto eu te darei se prostrado por terra me adorares!´O fundo último da ambição satânica é este: Tirar de Deus seus

adoradores, fazer convergir as adorações dos homens para ele próprio! “Resuimàmo-nos: o orgulho, a vontade de se fazer deus, a astúcia, a inveja e o ódio do homem, tudo isto

desembocando na mentira, no homicídio, no deicídio: eis Satanás!”. (Mgr L.CRISTIANI, op. cit., p. 308.)

Não lhe importam as derrotas que sofre continuamente, nem mesmo a final e definitiva a que está condenado; sua soberba se satisfaz com os pequenos triunfos que obtém, no esforço de levar as almas à eterna perdição.

Comenta o Cardeal Lepicier: “Escudado na satisfação de certas vitórias parciais e na esperança de grandes triunfos e, ao mesmo tempo, não se preocupando com as vergonhosas derrotas sofridas, Satanás prossegue loucamente na sua faina de tentar arrastar as almas para a eterna perdição. O seu pendão está sempre erguido e o seu grito insensato de desafio e revolta ouve-se por toda parte: ‘Eu não quero servir! ‘ (Jer 2, 20)”. (Card. A.LEPICIER. O Mundo invisível p. 240.)

O pai da vulgaridade

Outro aspecto da psicologia maldita do demônio é a vulgaridade. Odiando a Deus, ele odeia tudo aquilo que é verdadeiro, belo, bom. Ele odeia a compostura, a dignidade, a seriedade, a serenidade. O abade João Cassiano já observava no século V: “É fora de dúvida que existe entre os espíritos impuros o que o vulgo chama espíritos vagabundos, que são antes de tudo sedutores e bufões. Eles se postam constantemente em certos lugares e se divertem em enganar, muito mais do que em atormentar, aqueles que eles encontram. Eles se contentam em fatigá-los por seus escárnios e suas ilusões…” (Apud Mgr L. CRISTIANI, op. cit., p. 311.) São os famosos demônios bufões, que fazem talhar

a manteiga, secam o leite das vacas, desencadeiam enxames de vespas ou de abelhas, etc., tudo para fazre os homens perderem a paciência, praguejarem , blasfemarem.

Mons. F. M. Catherinet, demonólogo francês, analisando a ação dos demônios segundo as narrações evangélicas, traça deles o seguinte perfil: “Medrosos, obsequiosos, poderosos, malfazejos, versáteis e mesmo grotescos… ( Mgr F. M. CATHERINET, Les Démoniaques dans l´Évangile, P.319. )

Em carta a Mons. Cristiani, o Pe. Berger-Bergès, famoso exorcista, escreve: “Vós me perguntais … qual é a psicologia de Satanás, quando ele está submetido à ação dos exorcismos… É preciso definir e resumir a psicologia de Satanás por estas palavras: ORGULHO, DESPREZO DE SUA VÍTIMA, TENACIDADE!” |(Mgr L. CRISTIANI, op. cit., p.

312.)

O poder dos demônios

“O próprio Satanás se disfarça em anjo de luz”. (2 Cor 11, 14) TUDO QUANTO DISSEMOS a respeito do poder e do modo de agir dos anjos sobre a matéria aplica-se

igualmente aos demônios, que são anjos decaídos, mas que conservaram a natureza angélica e os poderes a ela inerentes.

Poder dos demônios sobre a matéria

Já vimos anteriormente como a presença dos anjos em um lugar não se dá fisicamente (contato físico), pois são seres incorpóreos, e sim por meio de sua atuação

(contato operativo): os anjos estão onde atuam. Em virtude de sua natureza espiritual, eles podem exercer sua atividade e tanto de fora dos corpos, como no interior deles, conforme observa São Boaventura: “Os demônios, em razão de sua sutileza e espiritualidade, podem penetrar em qualquer corpo e aí permanecer sem o menor

obstáculo e impedimento”. (In II Sent., Dist. 8, p. 2, a. um., q. 1, apud Mons. C. BALDUCCI, Gli Indemoniati, p.12.)

De um modo direto e imediato os demônios podem produzir na matéria apenas movimentos locais, ou extrínsecos, transferindo uma coisa de um lugar para outro,

sem entretanto alterar a natureza ou substância dessa coisa; de modo indireto, através desses movimentos locais, eles podem agir sobre a própria substância da matéria,

ao modificar a posição ou a quantidade dos elementos constitutivos da mesma.

Caso Deus o permitisse, os demônios, por sua natureza angélica, poderiam causar toda espécie de transtornos físicos. O Cardeal Lepicier afirma que se pode dizer que praticamente não há fenômeno no mundo que não possa ser realizado, de um modo ou outro, pelos anjos; logo, também pelos demônios.(Cardeal A. LEPICIER, O Mundo invisível, pp. 74.75.) E não raro o fazem, provocando tempestades, cataclismos, incêndios e outros desastres como também aparições fantasmagóricas, ruídos infernais e perturbações de toda ordem.

Poder dos demônios sobre o homem

Em relação ao homem, os demônios só podem operar de modo direto e imediato sobre aquilo que nele é matéria, ou está e necessária dependência dela; podem

agir nas funções da vida vegetativa, enquanto ligadas à matéria, e sobre a vida sensitiva, porque esta depende de órgãos corporais. No que se refere às funções próprias da

vida intelectiva, os demônios só podem chegar a elas indireta e mediatamente, quer dizer, atuando sobre a partecorpórea e sobre a vida sensitiva, das quais a alma deve servir-se para desenvolver suas atividades espirituais. Em outros termos, os demônios podem agir diretamente sobre a parte corpórea do homem, mas apenas indiretamente sobre sua inteligência e sua vontade.

Conforme ensina São Tomás,(Suma Teológico. 1-2, q. 80, a. 1-3.) o entendimento, por inclinação própria só se move quando algo o ilumina em ordem ao conhecimento da verdade. Ora, os demônios não querem conduzir o entendimento

à verdade, mas, pelo contrário, entenebrecê-lo como meio de levar o homem ao pecado. Por isso, eles não conseguem mover diretamente a inteligência do homem, e procuram então influir sobre ela indiretamente, através de sua ação sobre a imaginação e a sensibilidade.

Os demônios não podem tampouco mover diretamente a vontade humana, pois isto só o próprio homem ou Deus podem fazer; mesmo que o Maligno, por permissão

divina, se assenhoreie do corpo do homem e entenebreça sua mente — como se dá na possessão — , ele não pode obrigá-lo a pecar, pois a vontade não participaria dos atos

maus assim realizados, os quais seriam em consequência pecados apenas materiais.

Para mover a vontade do homem, os demônios precisam, de algum modo, convencê-lo, persuadi-lo a praticar uma ação má, ainda que sob a aparência de um bem.

A ação persuasiva do demônio

“O demônio não força; ele propõe, sugere, persuade, alicia” O demônio não tem o poder de obrigar os homens a fazer ou deixarem de fazer algo; por isso procura persuadi-

los para que se deixem conduzir pelo seu mal. “Ele não os força: ele propõe, sugere, persuade, alicia” escreve o Pe. J. de Tonquédec S.J., exorcista e demonólogo francês. E acrescenta: “No Éden, ele deu a Eva razões para ela transgredir a ordem divina (Gen 3,

4-5, 13); no deserto, solicitou Nosso Senhor pela atração de uma dominação universal (Mt 4, 26-27)”. (J. de TONQUÉDEC S.J., Quelques aspects de l´ation de Satan en ce

monde, p. 495.).

São Tomás também se refere a essa obra de persuasão do demônio, explicando que a vontade humana só se move internamente por ação do próprio homem ou de Deus; externamente ela pode ser solicitada pelo objeto que, entretanto, não força o homem a escolher o que não quer. (Suma Teológico, 1-2, q. 80, a. 1.). O Pe. Cândido Lumbreras O.P., assim comenta essa passagem do Doutor Angélico: “Que influência pode exercer

o demônio nos pecados dos homens? … O demônio pode oferecer aos sentidos seu objeto, falar à razão, seja interiormente, seja exteriormente; alterar os humores e produzir imagens perigosas, excitar enfim as paixões que podem mover a vontade e assenhorear-se do entendimento” (C. LUMBRERAS O.P., Tratado de los vicios y los pecados — Introducción. p. 766.)

Em comentário a outra passagem de São Tomás, explica Pe. Jesus Valbuena O.P.:

“Que os anjos possam iluminar e de fato iluminem o entendimento humano, é uma verdade que se atesta por uma multidão lugares nas Sagradas Escrituras … Também

os anjos maus são capazes de produzir, com sua virtude natural, falsas iluminações no entendimento dos homens, conforme nos admoesta São Paulo para que estejamos

alerta ´pois o próprio Satanás se disfarça em luz’ (2 Cor 11, 14). “Afirma São Tomás que nos sentidos do homem, sejam internos, sejam externos, os anjos podem influir e agir a partir de fora e a partir de dentro dos mesmos, querdizer, extrínseca e intrisecamente; mas, em relação ao entendimento e à vontade humanas, só os podem mover e influir indireta e exteriormente, quer dizer propondo a estas potências espirituais de uma maneira acomodada a elas seus objetos, que são a verdade e o bem e influindo nelas indiretamente mediante os sentidos, as paixões, as alterações corporais sensíveis, etc., embora não possam nunca chegar a dobrar ou completamente a vontade do homem, se este se acha em estado normal” (J. VALBUENA O.P., Tratado del Gobierno del Mundo— Introduccion, p. 898.)

Nos casos de Eva e de Nosso Senhor, o demônio “apresentou suas razões” tomando uma forma corpórea, produzindo sons e articulando as palavras oralmente; no geral dos casos, entretanto, o demônio, para persuadir o homem a pecar, conjuga sua ação sensibilidade, a memória e a imaginação.

As doutrinas perversas do demônio

O demônio tem uma doutrina mentirosa, que opõe à doutrina de Cristo. Em sua introdução ao Tratado sobre os anjos, de São de Aquino, comenta o Pe. Aureliano Martínez O.P.: “O demônio tem suas doutrinas perversas, às quais o Apóstolo chama espírito do erro e ensinamentos do demônio (1 Tim 4, 1), com as quais como deus deste mundo, cega a inteligência dos homens para que não brilhe nelas a luz do Evangelho (2 Cor 4, 4); doutrinas que propala mediante falsos apóstolos e operários enganadores que se disfarçam em apóstolos de Cristo; e não é de espantar, pois o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz (2 Cor 11, 13-14), tentando os fiéis de incontinência (1 Cor 7, 5) e de ira (Ef 4, 27)”. (A MARTÍNEZ O.P., Tratado de Los Angeles — Introducción, p. 511.)

Foi por essa razão que o Divino Salvador definiu o demônio como aquele “que não permaneceu na verdade; porque a verdade não está nele; quando ele diz a mentira,

fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44). Por meio dessa ação de persuasão o demônio procura na tentação, não apenas induzir-nos a cometer

este ou aquele pecado, mas afastar-nos completamente de Deus.

Limites à ação do demônio

Por mais poderoso que seja, com uma capacidade de ação superior à de qualquer outro ser criado, o demônio, entretanto, não é onipotente. Sendo mera criatura, ele tem suas limitações, decorrentes de três fatores: sua própria natureza, a condição particular de cada demônio e a vontade permissiva de Deus.

Limites impostos por sua própria natureza

Com toda criatura, o demônio está limitado em sua atuação pela sua própria natureza: por mais elevado que seja seu poder, este não pode ultrapassar os limites de sua natureza criada. Ele é um ser finito, contingente. Não se deve pois de forma alguma julgar que ele é capaz de saber tudo (oniciência), de poder tudo (onipotência) e estar em todo

lugar (onipresença): esses atributos são exclusivos de Deus. Sua inteligência, embora se tenha mantido intacta, está privada de todo auxílio sobrenatural. Os demônios perderam, com o pecado, toda forma de conhecimento sobrenatural; enquanto os anjos bons vêem em Deus o estado de uma alma (se ela está na graça divina ou em pecado), os demônios só podem fazer conjetura a respeito, O mesmo se deve dizer quanto a certos  acontecimentos futuros que Deus revela aos anjos.

Por sua natureza, nem os anjos bons nem os demônios podem conhecer o futuro livre ou futuro contingente isto é, aquele que depende da vontade divina e do livre arbítrio humano mas apenas Deus, que o pode revelar aos seus anjos.

Outro limite natural à ação do demônio é, como vimos, sua impossibilidade de agir diretamente sobre a inteligência e a vontade humanas; ele tem de usar meios indiretos: a sensibilidade, a imaginação, as paixões, e sobretudo a persuasão.

Limites devidos à condição particular de cada demônio

Outro limite à atuação demoníaca vem da diversa condição de cada demônio. Assim como existem desigualdades entre o homens, também entre os anjos e os demônios não há dois iguais. Por isso, nem todos os demônios têm o mesmo poder. Outro fator de limitação é a posição relativa de cada demônio na escala dos anjos decaídos, e as eventuais ordens e proibições que existam entre eles.

Limites impostos por Deus

O demônio só pode agir em detrimento do homem com a permissão de Deus.

Ensina o Cardeal Lepicier: “É preciso que nos lembremos sempre de que, por muito grande que seja o poder do demônio, tem limites que lhe foram sabiamente determinados pelo Todo-Poderoso. Ele pode, sem dúvida, fazer-nos mal, mas não além daquilo que lhe é permitido, e bem conhece que o seu poder não pode durar muito.

Pode ser que o conhecimento da curta duração do seu reino contribua para que redobre a sua atividade nos tempos que vão correndo; mas todos os seus esforços obedecem aos impenetráveis desígnios da Providência que só permite que a sua influência seja exercida até certo grau, de forma que nos possamos colocar debaixo da proteção de Deus e ganhar, pelos nossos méritos, a vitória final e a coroa da imortal glória que nos espera no Céu” ( Cardeal A. LÉPICIER, O.S.M., O Mundo invisível, p.242.)

No livro de Jó, no qual é nomeado pela primeira vez nas Escrituras, Satanás aparece como agente do mal, porém absolutamente subordinado a Deus.

Embora tenha inveja do justo Jó e queira pôr sua virtude à prova, por meio da infelicidade, Satanás não pode agir senão com a autorização divina. Ele tem necessidade

de uma permissão, ou até mesmo de uma delegação do Senhor. Sua ação é estritamente limitada à vontade de Deus, que permite, primeiro atacar seu servidor exclusivamente em seus bens e não em sua pessoa; depois em sua pessoa, mantendo entretanto sua vida (Jó 1, 6-12; 2, 1-7). São Paulo nos tranqüiliza: “Deus é fiel, o qual não permitirá que sejais tentados além do que podem as vossas forças; antes, com a tentação, vos dará as forças necessárias para sair dela e para suportá-la” (1 Cor 10,13).

Por que Deus permite que o demônio tente o homem, como também o prejudique, muitas vezes, de tantos modos? Como fica patente em tantas passagens da Escritura e ensinamentos do Magistério eclesiástico, essa permissão divina tem como escopo santificar o homem por meio de provações, puní-lo por alguma falta grave, servir de ocasião para que se manifeste o poder divino de um modo visível, como no caso dos exorcismos de possessos.

Poder dos anjos bons sobre os demônios

Ensina São Tomás que os anjos bons, mesmo que por natureza pertençam a uma hierarquia inferior à de algum demônio ( por exemplo em ralação a Satanás), sempre têm um domínio sobre os anjos decaídos. Pois os anjos gozam de perfeição da amizade de Deus, da qual estão privados os demônio; e esta perfeição é superior à mera excelência natural, a única que permanecesse nos demônios ( Suma Teológica, 1,q. 109,a.4. )

Por isso observa o Cardeal Lepicier: “ A sabedoria de Deus torna-se ainda mais manifesta, quando consideramos que ele colocou os espíritos malignos debaixo do domínio dos anjos bons e deu a cada homem, neste mundo, um anjo bom que o ilumina, guia os seus passos e o defende contra os seus inimigos. Por isso, os assaltos do inimigo das almas são aniquilados pela intervenção daqueles espíritos que se conservam fiéis a Deus, e o

demônio acaba por contribuir para a maior glória do Criador”. (Cardeal A. LÉPICIER, op. cit., p. 241.)

Os anjos da guarda

“Eis que eu enviarei o meu anjo, que vá adiante de ti,

e te guarde pelo caminho, e te introduza no lugar que preparei”. (Ex 23, 20-23)

DEUS, no seu amor infinito pelos homens, entregou cada um de nós à guarda e cuidado especial de um anjo, que nos acompanha desde o nascimento até a morte: o Anjo da Guarda. Essa doutrina foi sempre ensinada pela Igreja ( Cf. Catecismo Romano, Parte IV, cap. IX, n. 4. ) e se baseia em testemunhos da Sagrada Escritura e da Tradição — Santos Padres, Magistério Eclesiástico, Liturgia.

As Escrituras e os Santos Padres

O Antigo Testamento faz contínuas referências a esses anjos que nos servem de protetores. Mais do que nos ensinar explicitamente tal verdade, parece dá-la por suposta em suas narrações. Jacó ao abençoar seus netos, filhos de José, diz: “Que o anjo que me livrou de todo o mal, abençõe estes meninos” (Gen 48, 16) Nas palavras seguintes de Deus a Moisés encontramos os múltiplos ofícios que incumbem ao Anjo da Guarda, de proteção e de conselho: “Eis que eu enviarei o meu anjo, que vá adiante de ti, e te guarde pelo caminho, e te introduza no lugar que preparei. Respeita-o, e ouve a sua voz, e vê que não o desprezes; porque ele não te perdoará se pecares, e o meu nome está nele. Se ouvirdes a sua voz, e fizerdes tudo o que te digo, eu serei inimigo dos teus inimigos, e afligirei os que te afligem. E o meu anjo caminhará adiante de ti” (Ex 23,20-23).

Por meio do profeta Baruc, Deus comunica a Israel: “Porque o meu anjo está convosco, e eu mesmo terei cuidado das vossas almas” (Bar 6,6) O Salmo 90 exprime, com muita poesia, a solicitude de Deus para conosco, por meio do Anjo da Guarda: “O mal não virá sobre ti, e o flagelo não se aproximará da tua tenda. Porque mandou (Deus) os seus anjos em teu favor, que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te levarão nas suas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra” (SI 90, 10-12).

E outro Salmo proclama: “O anjo do Senhor assenta os seus acampamentos em volta dos que o temem, e os liberta” (SI 33, 8).

Lançado na cova dos leões, por intriga de invejosos, Daniel foi socorrido por um anjo: “O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou as bocas dos leões e estes não me fizeram mal algum” (Dan 6, 21). Fala-se, no Livro dos Reis, de um exército de carros que cercavam o profeta Eliseu (4 Reis 6, 14-17). São Tomás vê aí uma imagem do poder dos Anjos Custódios e a preponderância dos anjos bons sobre os maus.

São inúmeras as passagens do Antigo Testamento que fazem referência à doutrina sobre os Anjos da Guarda. Em nenhuma porém, a solicitude dos anjos para com os homens fica tão patente como no livro de Tobias.* E por isso que ele é muito citado sempre que se trata da matéria.

*Este livro da Sagrada Escritura é todo ele rico de ensinamentos sobre esta doutrina, de maneira que não basta transcrever aqui uma ou outra passagem dele; assim, convida-mos o leitor a lê-lo diretamente na Bíblia. Esse ensinamento se torna mais preciso no Novo Testamento, onde a existência do Anjo da Guarda é confirmada pelo próprio Salvador. Aos seus discípulos, advertindo-os contra os escândalos em relação às crianças, diz: “Vêdes que não desprezeis a um só destes pequeninos, pois eu vos declaro que os seus anjos vêem continuamente a face de meu Pai que está nos céus” (Mt 18, 10).

Essas palavras deixam claro que mesmo as crianças pequenas têm seus Anjos Custódios, como também que estes anjos mantém a visão beatífica de Deus ao descer à terra para atender e proteger a seus custodiados.

Também São Paulo se refere ao papel protetor dos anjos em relação aos homens: “Não são eles todos espíritos a serviço de Deus mandados para exercer o ministério a favor dos que devem obter a salvação?” (Heb 1, 14).

Os Santos Padres ensinam desde cedo essa doutrina.

São Basílio (329-379), entre os gregos, afirma: “Que cada qual tenha um anjo para o dirigir, como pedagogo e pastor, é o ensinamento de Moisés” ( Apud Card. J. DANIELOU, Les Anges et leur mission, p. 93. )

E, entre os latinos, São Jerônimo (342-420) assim comenta passagem de São Mateus (18, 10), acima citada, sobre os anjos das crianças: “Isto mostra a grande dignidade das almas, pois cada uma tem, desde o nascimento, um anjo encarregado de sua guarda”

A crença na existência e atuação dos Anjos da Guarda está tão firmemente estabelecida na tradição da Igreja, que desde tempos imemoriais foi instituída uma festa especial em louvor deles (2 de outubro).

O ensinamento dos teólogos

A partir dos dados da Sagrada Escritura e da Tradição, teólogos foram explicitando ao longo dos séculos uma doutrina sólida e coerente sobre os Anjos da Guarda.

O príncipe dos teólogos, São Tomás de Aquino, na sua célebre Suma Teológica, (Suma Teológico, 1,q. 113.) expõe largamente essa doutrina. O santo Doutor justifica a existência dos Anjos da Guarda pelo princípio de que Deus governa as coisas inferiores

e variáveis por meio das superiores e invariáveis. O homem não só é inferior ao anjo, mais ainda está sujeito a instabilidades e variações por causa fraquesa de seu conhecimento, das paixões, etc. Assim, ele é governado e amparado pelos anjos, que servem como instrumentos da providência especial de Deus para com os homens.

A função principal do Anjo da Guarda é iluminarnos em relação a verdade, à boa doutrina; mas sua custódia tem também muitos efeitos, tais como reprimir os demônios e impedir que nos sejam causados outros danos espirituais ou corporais.

Cada homem tem um anjo especialmente encarregado de guardá-lo, distinto do das coletividades humanas de que façam parte. Estas têm anjos especiais para custodiá-las; enquanto os anjos dos indivíduos pertencem ao último coro angélico, o das coletividades ou instituições podem fazer parte dos coros e hierarquias superiores.

Como há vários títulos pelos quais um homem necessita ser especialmente protegido (ou seja, considerado enquanto particular ou como ocupando um cargo ou função na Igreja a ou na sociedade), um mesmo homem pode ter vários anjos para custodiá-lo.

A Virgem Santíssima, Rainha dos Anjos, teve também não um, mas os Anjos da Guarda. Enquanto homem, Jesus teve Anjos da Guarda; não evidentemente para protegê-Lo, pois o inferior não guarda o superior, mas para servi-Lo.

Mesmo os infiéis têm Anjos da Guarda e até o Anti-Cristo o terá.

O Anjo da Guarda nunca abandonará o homem, mesmo após a morte, se ele for para o Paraíso, pois a custódia angélica é parte da providência especial de Deus para com o homem, o qual jamais estará totalmente privado da providência divina. Embora estejam normalmente no Céu, contemplando a Deus, os Anjos da Guarda conhecem tudo o que se passa na terra com seus protegidos; podem, então, quase imediatamente, passar de um lugar ao outro para protegê-los ou influenciá-los beneficamente.

Santo Agostinho pergunta: “Como podem os anjos estar longe, quando nos foram dados por Deus para ajudar-nos?” E responde: “Eles não se apartam de nós, embora aquele que é assaltado pelas tentações pense que estão longe”. (Apud A. J. MacINTYRE, Os anjos, urna realidade admirável p. 321).

Os Anjos Custódios nunca estão em oposição ou divergência real entre si. O relato bíblico da luta entre o anjo da Pérsia e o anjo Protetor dos Judeus (cf. Dan 10, 13-21) em que o primeiro queria reter os hebreus na Babilônia e o segundo desejava conduzi-los de volta à sua pátria encontra a seguinte explicação: às vezes Deus não revela aos anjos os méritos ou os deméritos das diversas nações ou indivíduos que eles custodiam. Enquanto não conhecem com certeza a vontade divina, os Anjos da Guarda procuram, santamente, proteger de todas as formas os que estão sob a sua proteção, mesmo contrariando os desejos de outros Anjos Custódios. Mas logo que a vontade de Deus fica clara para eles, todos se submetem pressurosos, pois o que desejam sempre é fazer a vontade divina.

Do mesmo modo que os homens, também as instituições, os povos e os países contam com um anjo especialmente encarregado de velar por eles.

Essa doutrina tem base nas palavras da Sagrada Escritura, onde é dito que um anjo conduzia o povo judeu pelo deserto (Ex 23,20), e também na passagem já referida sobre a luta entre o anjo dos Judeus e o anjo dos Persas (Dan 10, 13-21).

É também o que ensina São Basílio: “Entre os anjos, uns são prepostos às nações; os outros são companheiros dos fiéis”. ( Apud Card. J. DANIELOU, Les Anges et leur Mission, p. 93.).

São Miguel Arcanjo era o protetor de Israel enquanto povo eleito (Dan 10, 13-21); atualmente ele é o protetor do novo povo de eleição, a Igreja. As aparições de Nossa Senhora em Fátima. foram precedidas pela do Anjo de Portugal.

Efeitos da custódia dos anjos

Os efeitos da custódia dos anjos são, uns corporais, outros espirituais, ordenados, uns e outros, à salvação eterna do homem. Os efeitos são corporais, na medida em que impedem ou livram dos perigos ou males do corpo, ou auxiliam os homens nas questões materiais, conforme consta no livro de Tobias (cap. 5 e seguintes).

E são espirituais, sempre que os anjos nos defendem contra os demônios (Tob 8, 3); rezam por nós e oferecem nossas preces a Deus, tornando-as mais eficazes pelas sua intercessão (Apoc 8, 3; 12); nos sugerem bons pensamentos, incitando-nos assim a fazer o bem (At 8, 26; 10, 3ss),* por meio de estímulos da imaginação ou do apetite sensitivo; do mesmo modo, quando nos infligem penas medicinais para nos corrigir (2 Reis 24, 16); ou ainda, na hora da morte, fortalecem-nos contra o demônio; os anjos conduzem diretamente para o Céu as almas daqueles que morrem sem precisar passar pelo Purgatório, e levam para o Paraíso as almas que já passaram pela purgação necessária; eles também visitam as almas do Purgatório para as consolar e fortalecer, esclarecendo-as glória do céu, etc.

*Há vários exemplos disso na Sagrada Escritura:

Os Atos dos Apóstolos relatam a aparição de um anjo ao Centurião Cornélio, homem religioso e temente a Deus, para instruí-lo sobre como proceder para conhecer a verdadeira religião: “Este (Cornélio) viu claramente numa visão. quase à toa, que um anjo de Deus se apresentava diante dele, e lhe dizia: Cornélio … as tuas orações e as tuas esmolas subiram como memorial à presença de Deus. E agora envia homens a Jope a chamar um certo Simão que tem por sobrenome Pedro … ele te dirá o que deves fazer” (At 10, 1-6). E nos mesmos Atos se lê como um anjo inspira São Filipe Diácono a desviar-se de seu caminho, para fazê-lo encontrar-se com o ministro da Rainha Candace, da Et iópia, e batizá-lo, depois de instruílo na doutrina cristã (At 8, 26)

A custódia dos anjos nos livra de inúmeros perigos tanto para a alma como para o corpo. Entretanto, ela não nos livra de todas as cruzes e sofrimentos desta vida, que

Deus nos manda para nossa provação e purificação; nem daquelas tentações que Deus permite para que mostremos nossa fidelidade. Porém eles sempre nos ajudam a tudo suportar com paciência e vencer com perseverança. Às vezes parece que os anjos não nos estão atendendo; é preciso então rezar com mais insistência até que esse socorro se perceba. Mas pode ocorrer de não sermos ouvidos, não porque faltem aos anjos poder ou desejo de nos ajudar, mas é que aquilo que estamos pedindo não é o melhor para a nossa eterna salvação, que é o que antes de tudo eles procuram.

Nossos deveres em relação aos Santos Anjos Custódio

São Bernardo resume assim nossos deveres em relação aos nossos Anjos da Guarda:

  1. Respeito pela sua presença. Devemos evitar tudo o que pode contristar um espírito assim puro e santo. Sobretudo, evitar o pecado. “Como te atreverias — interpela o santo Doutor — a fazer na presença dos anjos aquilo que não farias estando eu diante de ti?”
  2. Confiança na sua proteção. Sendo tão poderoso e estando continuamente diante de Deus, e ao mesmo tempo conhecendo as nossas necessidades, como não confiar na sua proteção? A melhor maneira de provar essa confiança é recorrer a ele pela oração nos momentos difíceis, especialmente nas tentações.
  3. Amor e reconhecimento por sua proteção. Devemos amá-lo como a um benfeitor, um amigo e um irmão, e ser agradecidos pela sua proteção diligentíssima. “Sejamos, pois, devotos” — escreve o mesmo São Bernardo.

“Sejamos agradecidos a guardiões tão dignos de apreço, correspondamos a seu amor, honremos-lhe quanto possamos e quanto devemos!” ( Apud Jesus VALBUENA O.P., Tratado del Gobierno del Mundo — ntroducciones, p. 930. )

A oração por excelência para invocar e honrar o Anjo da Guarda da é o Santo anjo do Senhor: “Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, guarda, governa e ilumina”.

OS TRÊS GLORIOSOS ARCANJOS

“Eis que veio em meu socorro Miguel, um dos primeiros príncipes”. (Dan 10, 13)

“Eu sou Gabriel, que assisto diante (do trono) de Deus”. (Lc 1, 19,)

“Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos diante do Senhor”. (Tob 12, 15)

A Igreja e o povo fiel veneram de modo especial os três gloriosos Arcanjos — São Miguel, São Gabriel e São RafaeL. Embora eles sejam comumente chamados de Arcanjos, segundo teólogos e comentaristas das Escrituras, eles certamente pertencem ao primeiro dos coros angélicos, o dos Serafins.

São Miguel: “Quem é como Deus?”

Em hebraico: mîkâ’êl, que significa: “Quem (é) como Deus?” As Escrituras se referem nominalmente ao Arcanjo São Miguel em quatro passagens: duas delas na profecia de Daniel (cap. 10, 13 e 21; e ap. 12, 1); uma na Epístola de São Judas Tadeu (cap. único, vers. 9 ) e finalmente no Apocalipse (cap. 12, 7-12). No livro de Daniel o Santo Arcanjo aparece como “príncipe e protetor de Israel”, que se opõe ao “príncipe” ou celestial protetor dos persas.* Segundo São Jerônimo e outros comentadores, o anjo protetor da Pérsia teria desejado que ficassem ali alguns judeus para mais dilatarem o conhecimento de Deus; porém São Miguel teria desejado e pedido a Deus que todos os judeus voltassem logo para a Palestina, a fim de que o templo do Senhor

fosse reconstruído mais depressa. Essa luta espiritual entre os dois anjos teria durado vinte e um dias.

* Nas escrituras os anjos são chamados com freqüêncía príncipes.

São Judas, na sua Epístola, alude a uma disputa de São Miguel com o demônio sobre o corpo de Moisés: o glorioso Arcanjo, por disposição de Deus, queria que o sepulcro de Moisés permanecesse oculto; o demônio, porém, procurava tomá-lo conhecido, com o fim de dar aos judeus ocasião de caírem em idolatria, por influência dos povos pagãos circunvizinhos. No Apocalipse, São João apresenta São Miguel capitaneando os anjos bons em uma grande batalha no céu contra os anjo rebeldes chefiados por Satanás, ali

chamado dragão: “E houve no céu unia grande batalha: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o dragão, e o dragão e seus anjos pelejavam contra ele; porém, estes não prevaleceram, e o seu lugar não se achou mais no céu. E foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga serpente, que se chama demônio e Satanás, que seduz todo o mundo; e foi precipitado na terra, e foram precipitados com seus anjos” (Apoc 12, 7-12).

A Igreja não definiu nada de particular sobre São Miguel, mas tem permitido que as crenças nascidas da tradição cristã a respeito do glorioso Arcanjo tenham livre curso na piedade dos fiéis e na elaboração dos teólogos.

 

A primeira crença é a de que São Miguel era, no Antigo Testamento, o defensor do povo escolhido — Israel; e hoje o é do novo povo escolhido — a Igreja. Tal piedosa crença está em consonância com o que é dito no

livro de Daniel: “Eis que veio em meu socorro Miguel, um dos primeiros príncipes. … Miguel. que é o vosso príncipe” — isto é, dos judeus (10, 13 e 21). “Se levantará o grande

príncipe Miguel, que é o protetor dos filhos do teu povo” — de Israel (12, 1). Essa crença é muito antiga, sendo já confirmada pelo Pastor de Hermas, célebre livro cristão do

século II, no qual se lê: “O grande e digno Miguel é aquele que tem poder sobre este povo” (os cristãos). Ademais, tal crença é partilhada pelos teólogos e pela própria Igreja,

que a manifesta de muitas maneiras.

 

A segunda crença geral é a de que São Miguel tem o poder de admitir ou não as almas no Paraíso. No Oficio Romano deste Santo no antigo Breviário, São Miguel era chamado de “Praepositus paradisi” — “Guarda do paraíso”, ao qual o próprio Deus se dirige nos seguintes termos: “Constitui te Principem super omnes animais suscipiendas”

— “Eu te constituí chefe sobre todas as almas a serem admitidas”. E na Missa pelos defuntos rezava-se: “ Signifer Sanctus Michael representet eas in lucem sanctam”

— “O ‘ Porta-estandarte São Miguel, conduzi-as à luz santa”.

 

A terceira crença, ou melhor, opinião, é a de que São Miguel ocupa o primeiro lugar na hierarquia angélica. Sobre este ponto há divergência entre os teólogos, mas tal opinião tem a seu favor vários Padres da Igreja gregos e parece ser corroborada pela liturgia latina, que se referia ao glorioso Arcanjo como “Princeps militiae coelestis quem honorificant coelorum cives” — “Príncipe da milicia celeste, a quem honram os habitantes do Céu”; e pela liturgia grega que o chama “Archistrátegos “, isto é, “Generalíssimo.”

O grande comentador das Sagradas Escrituras, Pe. Cornélio a Lapide, jesuíta do século XVI, escreve:

“Muitos julgam que Miguel, tanto pela dignidade de natureza, como de graça e de glória é absolutamente o primeiro e o Príncipe de todos os anjos.

E isso se prova, primeiro, pelo Apocalipse (12, 7), onde se diz que Miguel lutou contra Lúcifer e seus anjos, resistindo à sua soberba com o brado cheio de humildade: ‘Quem (é) como Deus?’

Portanto, assim como Lúcifer é o chefe dos demônios, Miguel o é dos anjos, sendo o primeiro entre os serafins.

Segundo, porque a Igreja o chama de Príncipe da Milícia

Celeste, que está posto à entrada do Paraíso. E é em seu nome que se celebra a festa de todos os anjos.

Terceiro, porque Miguel é hoje ao cultuado como o protetor da Igreja

como outrora o foi da Sinagoga. Finalmente, em quarto lugar, prova-se que São Miguel é o Príncipe de todos os anjos, e por isso o primeiro entre os Serafins, porque diz São Basílio na Homilia De Angelis: ‘A ti, ó Miguel, general dos espíritos celestes, que por honra e dignidade estais posto à frente de todos os outros espíritos celestiais, a ti suplico…’ “. ( Cornélio A LAPIDE, Commentaria in Scripturam Sacram, t. 13, pp. 112-114 )

O mesmo dizem inúmeros outros autores, entre os quais São Roberto Bellarmino.

Na Idade Média, São Miguel era padroeiro especial das Ordens de Cavalaria, que defendiam a Cristandade contra o perigo metano.

São Gabriel: “Força de Deus”

Em hebraico: gabrî’êl, que quer dizer: “Homem de Deus” ou “Deus se mostrou forte” ou, ainda, “Força de Deus”.

Ministério dos anjos

OS MINISTÉRIOS dos anjos são: em relação a Deus, adorá-lo, louvá-Lo, servi-Lo, executando todos os Seus decretos em relação aos demais anjos, quer aos homens,

como também a toda a natureza material, animada e inanimada; em relação aos demais anjos, os de natureza superior iluminam os inferiores. dando-lhes a conhecer aquilo que vêm em Deus; em relação aos homens, eles são ministros de Deus para encaminhá-los à pátria celeste, protegendo-os, corrigindo-os, instruindo-os, animando-os; em relação ao mundo material, eles são agentes de Deus para o governo do Universo.

Ministros da liturgia celeste

O principal ministério dos anjos consiste em adorar, louvar e servir a Deus: “Anjos do Senhor, bendizei ao Senhor … Exércitos do Senhor, bendizei ao Senhor; louvai-O

e exaltai-O por todos os séculos” (Dan 3, 58-61). “Bendizei ao Senhor, vós todos os seus anjos, fortes e poderosos, que executais as suas ordens e obedeceis as suas palavras”

(Si 102, 20). “Os Serafins estavam por cima do trono… E clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos” (Is 6,2-3).

Os santos anjos desempenham assim a liturgia celeste:

“E vi os sete anjos que estavam de pé diante de Deus … E veio outro anjo, e parou diante do altar, tendo um turíbulo de ouro; e foram-lhe dados muitos perfumes, a fim de que oferecesse as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do trono de Deus. E o aroma dos perfumes das orações dos santos subiu da mão do anjo até à presença de Deus” (Apoc 8,2-4). Esses puros espíritos são, pois, ministros do altar

e ministros do trono de Deus: eles cantam os louvores de Deus na presença do Altíssimo, e apresentam-Lhe as nossas preces e as nossas boas obras; ao mesmo tempo, descem até nós e nos trazem as graças e bênçãos divinas, verdade belamente expressa na visão da escada de Jacó: “(Jacó) teve um sonho: Uma escada se erguia da terra e chegava até o céu, e anjos de Deus subiam desciam por ela” (Gen 28, 12).

Essa verdade, em termos práticos, significa que eles são intercessores poderosíssimos diante de Deus.

A eficácia da intercessão angélica é testemunhada, entre muitas outras passagens da Escritura, por esta do livro do Profeta Zacarias: “E o anjo do senhor replicou e disse: Senhor dos exércitos, até quando diferirás tu o compadecerte de Jerusalém e das cidades de Judá, contra as quais te iraste? Este é já o ano septuagésimo. … Isto diz o Senhor dos exércitos: Eu sinto um grande zelo por Jerusalém e por Sião… Portanto isto diz o Senhor: Voltarei para Jerusalém com entranhas de misericórdia” (Zac 1,12-16).

Isto nos deve mover a recorrer sempre com fervor e cada mais a eles.

Guerreiros dos exércitos do Senhor

As Sagradas Escrituras nos apresentam os anjos numa guerreira, como a milícia dos exércitos do Senhor. Assim, o profeta Miquéias exclama: “Eu vi o Senhor sentado sobre seu trono, e todo o exército do céu ao redor dele, à direita e à esquerda” (3 Reis 22, 19). E o livro de Josué, ao narrar a luta dos judeus para conquistar a Palestina, após saírem do Egito, diz: “Ora, estando Josué nos arredores da cidade de Jericó, levantou os olhos e viu diante de si um homem em pé, que tinha uma espada desembainhada. Foi ter com ele e disse-lhe: Tu és dos nossos, ou dos inimigos? E ele respondeu: Não; mas sou

o príncipe do to do Senhor” (Jos 5, 13-14).*

* No Antigo Testamento os anjos são designados das mais diversas formas: “príncipes”; “filhos de Deus”; “santos”; “anjos santos”; “sentidos vigilantes”; “espíritos”;

“homem”.

O próprio Deus, a quem servem esses anjos guerreiros, é apresentado como o Deus dos exércitos. O profeta Oséias, descrevendo a fidelidade de Jacó, registra: “E o

Senhor Deus dos exércitos, este Senhor ficou sempre na sua memória” (Os 12, 4-5).

Amós profetiza a prevaricação de Israel em nome do Senhor Deus dos exércitos: “Ouvi isto, e declarai-o à casa de Jacó, diz o Senhor dos exércitos”. E adiante: “Pois sabe, casa de Israel, diz o Senhor Deus dos exércitos, que eu vou suscitar contra vós uma nação vos oprimirá” (Am 3, 13; 6, 15). Na visão do profeta Isaías: “Os serafins .. clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos” (Is 6, 2-3). A mesma expressão é utilizada nos Salmos de Davi: “Quem é esse Rei da Glória ? O Senhor dos exércitos; esse é o Rei da glória “. “O Senhor dos exércitos está conosco; o Deus de Jacó é a nossa cidadela” ( Sl 23,10; 45, 8).

O Senhor Deus dos exércitos, após a desobediência de nossos primeiros pais, “pôs diante do paraíso de delícias Querubins brandindo uma espada de fogo, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gen 3,24). As hostes celestes combateram no Céu uma “grande batalha” (Apoc 12, 7), derrotando e expulsando Satanás e os anjos rebeldes.

E na noite sublime do Natal, esses guerreiros celestes apareceram aos pastores: “E subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celeste louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2, 8-14).

Deus confia à milícia celeste a defesa daqueles que O amam. Segundo os intérpretes, um anjo exterminador matou em meio à noite todos os primogênitos do Egito (Ex 12, 29); e ao serem os judeus perseguidos pelo exército do Faraó, o anjo do Senhor, que ia diante deles, se interpôs entre os egípcios e o povo escolhido (Ex 14, 19). Quando Senaquerib ameaçava o povo eleito, Deus enviou um de seus terríveis guerreiros angélicos: “Naquela mesma noite saiu o anjo de Iavé e exterminou no acampamento assírio cento e oitenta e cinco mil homens” (4 Reis 19, 35).

Às vezes os combatentes celestes se juntam aos combatentes terrestres para dar-lhes a vitória, como se deu numa batalha decisiva de Judas Macabeu: “Mas, no mais forte do combate, apareceram do céu aos inimigos cinco homens em cavalos adornados de freios de ouro, que serviam de guia aos judeus. Dois deles, tendo no meio de si Macabeu, cobrindo-o com suas armas, guardavam-no para que andasse sem risco da sua pessoa; e lançavam dardos e raios contra os inimigos, que iam caindo feridos de cegueira, e cheios de turbação. Foram pois mortos vinte mil e quinhentos homens, e seis10 centos cavalos” (2 Mac 10, 28-32).

O Senhor Deus dos exércitos envia igualmente seus guerreiros para livrar seus amigos das mãos dos ímpios: “Deitaram (os judeus) as mãos sobre os Apóstolos e meteram-nos na cadeia pública. Mas um anjo do Senhor, abrindo de noite as portas do cárcere, e, tirando-os para fora, disse: Ide, e , apresentando-vos no templo, pregai ao povo toda as palavras desta vida” (At 5, 18-20). “Herodes … mandou também prender Pedro … E eis que sobreveio um anjo do Senhor, e resplandeceu de luz no aposento; e, tocando no lado de Pedro, o despertou, dizendo: Levanta-te depressa. E caíram as cadeias das suas mãos. E o anjo disse-lhe: Toma a tua cinta, e calça as tuas sandálias. E ele fez assim. E o anjo disse-lhe: Põe sobre ti a tua capa e segue-me. E ele, saindo, seguia-o, e não sabia que era realidade o que por intervenção do anjo, mas julgava ter uma visão. E, depois de passarem a primeira e a segunda guarda, chegaram à porta de ferro que dá para a cidade, a qual se lhes abriu por si mesma. E saindo, passaram uma rua e, imediatamente, o anjo afastou-se dele: Então Pedro, voltando a si, disse: Agora sei verdadeiramente que o Senhor mandou o seu anjo, e me livrou da mão de Herodes e de tudo o que esperava o povo dos judeus” (At 12, 1-11).

O próprio Salvador, para deixar claro aos Apóstolos que Ele sofria a Paixão por espontânea vontade, disse a São Pedro, que O queria defender por meio da espada:

“Julgaste por ventura que eu não posso rogar a meu Pai, e que ele não me porá imediatamente aqui de doze legiões de anjos?” (Mt 26, 53).

Executores das vinganças de Deus

Esses guerreiros executam igualmente as vinganças de Deus: Diante dos pecados dos sodomitas, Deus enviou seus anjos: “Quanto aos homens que estavam à porta (da casa de Lot e queriam abusar dos jovens que lá estavam), eles (os anjos) os feriram com cegueira, do menor ao maior, de modo que não conseguiram achar a entrada “. “Os anjos disseram a Lot … nós vamos destruir este lugar pois é grande o clamor que se ergueu contra eles diante do Senhor. E o Senhor nos enviou para exterminá-los (Gen 19, 10-13).

“Quando os mensageiros do rei Senaquerib blasfemaram contra ti, teu anjo interveio e feriu cento e oitenta e cinco mil dos seus homens”. (1 Mac 7,41).

Herodes Agripa, que perseguira São Pedro e matara São Tiago, foi “ferido pelo anjo do Senhor e comido de vermes” (At 12, 23).

No fim do mundo:

“O Filho do homem enviará os seus anjos, e tirarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes” ( Mt13, 41-42). “Quando aparecer o Senhor Jesus (descendo) do céu com os anjos do seu poder, em uma chama de fogo, para tomar vingança daqueles que não conheceram a Deus e que não obedecem ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo; os quais serão punidos com a perdição eterna longe da face do Senhor e da glória do seu poder” (2 Tess 1, 7-9).

Mensageiros celestes

O próprio nome de anjos indica já sua função: enviados ou mensageiros de Deus. Com efeito, o original hebraico do Antigo Testamento se refere a esses puros espíritos como mal´âk yahweh, isto é, emissários de Deus.

A versão grega utilizou a expressão angelos, a qual foi por sua vez traduzida em latim por angelus, palavra que serviu de base para as línguas ocidentais. O Novo Testamento nos mostra a ação desses emissários de Deus, comunicando aos homens as mais importantes mensagens divinas. Assim, o arcanjo São Gabriel anuncia a Zacarias o nascimento do Precursor, São João Batista: “Eu sou Gabriel, que assisto diante do trono de Deus e fui enviado para falar-te e comunicar-te esta boa nova” (Lc 1,19).

O mesmo anjo anuncia à Santíssima Virgem o mistério da Encarnação: “Foi enviado o anjo Gabriel da parte de Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré, a uma virgem desposaca com um varão de nome José, da casa de David; e o nome da Virgem era Maria” (Lc 1,26-27). Um anjo aparece a São José em sonhos dando-lhe a conhecer também esse mistério: “Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos dizendo: José, filho de David, não temas receber Maria como tua esposa, porque o que nela foi concebido é (obra) Espírito Santo” (Mt 1,20).

A alegria do nascimento do Salvador foi anunciada pela aos pastores: “Ora naquela mesma região havia uns pastores que velavam e faziam de noite a guarda ao seu

rebanho. E eis que apareceu junto deles um anjo do Senhor, e a claridade de Deus os cercou,, e tiveram grande temor. Porém o anjo disse-lhes: Não temais; porque eis que vos anuncio uma grande alegria, que terá todo o povo. Nasceu-vos na cidade de David o Salvador, que é Cristo Senhor. E eis o sinal: Encontrareis um menino envolto em panos deitado numa manjedoura. E subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celeste louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,8-14).

Um anjo aconselha à Sagrada Família fugir para o Egito por causa da perseguição de Herodes: “Eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e lhe disse: Levanta-te, torna o menino e sua mãe e foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise; porque Herodes vai procurara menino para o matar” (Mt 2, 13). Depois da morte de Herodes, o anjo torna a aparecer a São José: “Morto Herodes, eis que o anjo do Senhor apareceu em sonho a José no Egito, dizendo: Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e vai para a terra de Israel, porque morreram os que procuravam tirar a vida ao menino” (Mt 2, 19-20).

Consoladores e confortadores

Em diversos episódios, a Sagrada Escritura nos mostra os anjos no seu ministério de consoladores e confortadores dos homens em dificuldades.

O profeta Elias, sendo perseguido pela ímpia rainha Jezabel (a qual introduzido em Israel o culto idolátrico de Baal), fugiu para o deserto; ali, prostrado de desânimo e fadiga, adormeceu. “E um anjo do Senhor o tocou, e lhe disse: Levanta-te e come”. Elias abriu os olhos e viu junto de sua cabeça um pão e um vaso de água; comeu e bebeu e tornou a adormecer. “E voltou segunda vez o anjo do Senhor, e o tocou e lhe disse: Levanta-te e come, porque te resta um longo caminho “. O Profeta levantou-se, e bebeu e, revigorado, caminhou durante quarenta dias e quarenta noites até o Monte Horeb, onde Deus iria manifestar-se a ele(3 Reis 19, 1-8).

Em sua vida terrena o próprio Salvador foi servido e confortado anjos. Assim se deu após o prolongado jejum no deserto e a tentação do demônio: “Então o demônio deixou-o; e eis que os anjos se aproximam e o serviam” (Mt 4, 11). Na terrível agonia do Horto das Oliveiras, depois de Jesus exclamar: “Pai, se é do teu agrado, afasta de mim este cálice “, o Padre enviou um anjo para confortá-Lo: “Então apareceu-lhe um anjo do céu que o confortava” (Lc 22, 42-43).

Na Ressurreição “um anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, revolveu a pedra, e estava sentado sobre ela; e o seu aspecto era como um relâmpago e as suas vestes brancas como a neve”. E o mesmo anjo consolou as Santas Mulheres que haviam ido ao Sepulcro: “Não temais, porque sei que procurais a Jesus que foi crucificado; ele já não está aqui, porque ressuscitou como tinha dito” (Mt 28, 2-8).

Agentes de Deus para o governo do Universo

É por meio dos santos anjos que Deus exerce o governo do Universo.

Os Padres e Doutores da Igreja reconhecem nos anjos um grande poder, não só sobre as plantas e animais, mas até sobre o próprio homem. A Sagrada Escritura falanos também do anjo que tem poder sobre o fogo (Apoc 14,18), e daquele que manda nas águas (Apoc 16, 5). Santo Agostinho diz que cada espécie distinta, nos diferentes reinos da natureza, é governada pelo poder angélico. Segundo São Tomás, Deus mesmo estabeleceu, até

os mínimos detalhes, seu plano de governo do mundo. Mas ele confia a execução desse plano, em graus variados, primeiro aos anjos, depois aos homens, segundo suas funções diversas, e por fim às outras criaturas.

Os anjos são os agentes da execução de Deus em todos domínios. Como Deus governa tudo, os anjos O ajudam e obedecem em tudo. Ele exerce seus desígnios no Cosmos pelo ministério dos anjos. “E claro que as galáxias do céu, assim como as feras das florestas e os pássaros que cantam para nós, e o trigo de nossos campos, os minerais e os gases, os prótons e os nêutrons sofrem a ação dos anjos” comenta Mons. Cristiani. (Mgr L. CRISTIANI,Les Anges, ces inconus, p. 651.)

São Tomás é categórico a esse respeito: “Todas as corporais são governadas pelos anjos. E este é não somente o ensinamento dos Doutores da Igreja, mas também

de todos os filósofos” ( Suma contra Gentiles, lib. III, c. 1. ) E o Cardeal Daniélou explica: “Trata-se pois de uma doutrina estabelecida pela tradição e pela razão. E nós, de

nossa parte, pensamos que o governo inteligente e forte do qual dá testemunho a ordem do cosmos pode bem ter por ministros os espíritos celestes, em que pese o racionalismo

de alguns de nossos contemporâneos”. ( Apud Mgr L. CRISTIANI, art. cit., p.651.)

Guias e protetores dos homens

Os anjos, apesar de sua excelsitude, por desígnio de Deus, são nossos amigos e companheiros. Eles nos protegem nas necessidades, nos guiam nos perigos, nos sugerem continuamente bons propósitos, atos de amor e submissão a Deus. Pela sua importância, a doutrina sobre os Anjos da Guarda merece maior desenvolvimento. É o que faremos em capítulo à parte.

Se o próprio Deus se serve continuamente dos anjos, não devemos nós também recorrer sempre aos príncipes dos exércitos do Senhor, aos mensageiros de Deus, invocando-os em todas as nossas necessidades?

Como vencer o demônio

DEPOIS DE TERMOS ESTUDADO a atividade demoníaca ordinária (a tentação) e a atividade extraordinária (infestação pessoal e a local, possessão), de ter visto os critérios para o diagnóstico dessas manifestações, parece-nos indispensável dar aqui os meios que temos para fazer face às investidas diabólicas.

 

O homen não está desarmado diante do poder das trevas. Ele dispõe de armas brenaturais e também naturais com que enfrentar as investidas diabólicas.

 

Primeiramente, cabe ver de que meios preventivos dispomos; ou seja, como fazer para evitar, tanto quanto está em nós, as investidas do demônio. A seguir, quais os meios terapêuticos á nossa disposição, para nos curarmos, caso nos ocorra sermos atingidos por tais investidas.

 

Esses meios podem ser chamados remédios, porque a ação demoníaca provoca em nós distúrbios que não são menos incômodos que as enfermidades do corpo. E assim como as doenças do corpo podem conduzir à morte física, a atuação do demônio visa produzir a morte da alma.

Remédios gerais, preventivos e liberativos

“E não nos deixeis cair em tentação,

mas livrai-nos do mal”.    (Mt 6, 13)

NA LUTA CONTRA a atividade demoníaca ordinária (tentações) e extraordinária (infestação local, infestação pessoal sessão e possessão), os autores recomendam, em primeiro lugar, os remédios gerais oferecidos pela Igreja.

Práticas religiosas e devocionais

Oração e penitência; sacramentos e sacramentais

Antes de qualquer outro, vem o grande remédio indicado pelo próprio Salvador, como o único capaz de vencer certa casta de demônios — a oração e o jejum, acompanhados por aquela fé que move as montanhas (cf.Mt 17, 14-20).

A oração por excelência é aquela que o próprio Cristo ensinou quando seus discípulos Lhe pediram: “Senhor, ensina-nos a rezar” — o Pai-Nosso (Lc 11, 1-4; Mt 6,9-13).

Nas duas últimas petições, rogamos ao Pai celeste que nos dê forças para resistir aos assédios da carne, do mundo e do demônio: “Não nos deixeis cair em tentação”; e que nos livre do mal, do supremo mal — o pecado; e de seu instigador — o demônio: livrai-nos do mal” ou “livrainos do Maligno”.* A liturgia em várias cerimônias recita o Pai-Nosso, todo ou, apenas essas duas petições. É recitado por inteiro nos exorcismos solenes sobre possessos.

Os especialistas explicam que, no texto grego dos Evangelhos, podemos entender essa petição tanto no sentido de sermos livres do mal, como do autor do mal, o Maligno, o demônio. “De fato, as duas interpretações não se excluem — comenta o P. Jean Carmignac – uma vez que o fim do demônio é o pecado e o pecado tem o demônio por instigador. Contudo, segundo as diretrizes de Cristo, devemos pedir o afastamento não somente do pecado, mas sobretudo do demônio” (Abbé Jean CARMIGNAC, Á l´écoute du Notre Père, Éditions de Paris, 1971, p. 87; no

mesmo sentido, J. de TONQUÉDEC S.J., Quelques aspects de l´action de Satan en ce monde, p. 496, nota 5).

Depois vem a Ave-Maria — louvor da Mãe de Jesus, a qual, por sua imaculada Conceição, esmaga para sempre a cabeça da antiga serpente. É igualmente recitada nos exorcismos sobre possessos.

Por fim, o Credo — Creio em Deus Pai — solene profissão de fé católica, que infunde especial terror ao demônio; também é recitado nos exorcismos sobre possessos.

Junto com a oração e a penitência, é indispensável a freqüência aos sacramentos, sobretudo da Confissão e da Comunhão; assim como o uso de sacramentais (como a água-benta e o Agnus Dei) e de objetos bentos (velas, escapulários, imagens, cruzes, medalhas – articularmente

a Medalha Milagrosa e a medalha-cruz exorcística de São Bento).

Devemos lembrar também o poder do Sinal da Cruz para afugentar o demônio: o símbolo de nossa Redenção, que destruiu seu reino, causa-lhe particular terror; o demônio foge… como o diabo da cruz…— segundo o dito popular.

Além das quatro cruzes que se fazem no Sinal da Cruz, as próprias palavras pronunciadas são de natureza exorcística deprecatória: “Pelo sinal (+) da Santa Cruz, livrai-nos Deus (+) Nosso Senhor, dos nossos (+) inimigos. Em nome do Pai, e do Filho, (+) e do Espírito Santo.

Amém.”

Por isso devemos fazer o Sinal da Cruz nas mais diversas ocasiões: ao levantar e ao deitar, antes das refeições, ao sair de casa, nas viagens, antes de tomar alguma resolução, etc.

A água-benta é feita expressamente para afastar dos lugares e das sobre as quais é aspergida “todo o poder do inimigo e o próprio inimigo com seus anjos apóstatas” conforme se lê no Ritual Romano. (Rituale Romanum, tit. VIII, c. 2. ). São numerosas no mesmo Ritual as bênçãos,

orações e cerimônias com o mesmo fim, aplicadas a objetos e lugares diversos, as quais contém a mesma fórmula deprecatória contra Satanás.

A confissão: mais forte que o exorcismo

Convém insistir na confissão freqüente — apesar das dificuldades que hoje se apresentam para essa prática sacramental – pelo empenho dos teólogos e dos exorcistas quanto à sua eficácia.

O exorcista da arquidiocese de Veneza, Pe. Pellegrino Emetti, da Ordem de São Bento, enfatiza: “O sacramento da Confissão, nós o sabemos, é a segunda tábua de salvação depois do Batismo. … A experiência ensina que dificilmente Satanás consegue penetrar em uma alma que se lava freqüentemente com o Sangue preciosíssirno de Jesus. Este sangue torna-se a verdadeira couraça contra a qual Satanás pode forçar, porém não consegue abrir nenhuma

brecha. A freqüência assídua e constante desse sacramento é necessária, seja para quem faz o exorcismo, seja para quem dele tem necessidade. Estou certo, por urna longa experiência, que o sacerdote deveria lavar a sua alma no sangue de Jesus até mesmo diariamente, se quiser lutar juntamente com Jesus contra Satanás, e sair vitorioso. É verdadeiramente este o sacramento do

qual Satanás tem medo … Cristo venceu Satanás com o próprio Sangue. E o Apocalipse explicitamente nos diz: “Estes são aqueles que venceram Satanás com o Sangue

do Cordeiro “. (D. P. ERNETTI O.S.B., La Catechesi di Satana, p. 251.)

É igualmente taxativo o Pe. Gabriele Amorth, exorcista da diocese de Roma: “Muitas vezes escrevi que se causa muito mais raiva ao demônio confessando-se, ou seja, arrancando do demônio a alma, do que exorcizando e arrancando-lhe assim o corpo. … A confissão é mais forte

que o exorcismo “. (G. AMORTH, Un esorcista racconta, pp. 63 e 86.)

Desprezo soberano ao demônio

A esses meios, os santos e autores espirituais acrescentam o desprezo soberano ao demônio.

Ouçamos Santa Teresa: “É muito freqüente que esses espíritos malditos me atormentem; mas eles me inspiram muito pouco medo, porque, eu o vejo bem, eles não podem sequer se mexer sem a permissão Deus… Que se saiba bem: todas as vezes que nós desprezamos os

demônios, eles perdem sua força e a alma adquire sobre eles mais domínio… Verem-se desprezados por seres mais fracos, é, com efeito, uma rude humilhação para esses soberbos. Ora, como dissemos apoiados humildemente em Deus, nós temos o direito e o dever de os

desprezar: Se Deus está conosco, quem será contra nós? Eles podem latir, mas não podem nos morder, senão no caso em que — seja por imprudência, seja por orgulho — nos colocaremos em seu poder”.(Apud Ad. TANQUEREY – Jean GAUTIER, Abrégé de Théologie Ascétique et

Mystique, p. 112.)

É evidente que não devemos confundir esse desprezo ao demônio com a vã pretensão de que, por nós mesmos, temos algum poder sobre os anjos decaídos. Por natureza não temos nenhum poder sobre eles; pelo contrário, por sua natureza superior, eles é que podem ter

domínio sobre nós. A base desse desprezo salutar dos inimigos infernais tem de ser a mais perfeita humildade e a confiança verdadeira e não temerária no Criador, na Santíssima

Virgem. Tomados esses cuidados, convém fazer o que a grande Santa Teresa indica com tanta propriedade.

Sobretudo, devemos nos esforçar por ter uma vida de piedade séria e autêntica, sem superstições nem sentimentalismos. Isto manterá o demônio distante de nós, o quanto é possível.

Fortalecimento da inteligência e da vontade

Um grande meio preventivo na luta contra o demônio é o fortalecimento de nossa inteligência e de nossa vontade.

Com efeito, a principal defesa de ordem natural que temos contra as investidas dos espíritos malignos é a inviolabilidade dessas faculdades superiores, as quais mais nos assemelham a Deus. Na medida em que permitimos seu enfraquecimento, estamos nos colocando á mercê de

Satanás e seus seqüazes. Pois o demônio tem lucrado tanto com o enlouquecimento geral a que estamos assistindo em nossos dias, que é o caso de perguntar se não é ele quem o está provocando.

Sem o consentimento da vontade humana, nenhuma ação externa — quer da parte dos anjos, quer dos demônios — pode surtir o seu efeito: nenhum anjo pode constranger o homem a uma ação boa e nenhum demônio o pode fazer pecar.

Deus dotou o homem de vontade livre, dom natural inapreciável, que lhe permite decidir se acolhe ou não as boas inspirações, se cede ou não às tentações, por mais que estas possam ser apresentadas com grande habilidade e astúcia, comprometendo a fantasia, ou com veemência,

exacerbando as paixões e os instintos. O homem não é mero objeto passivo de disputa entre os anjos e os demônios, nem simples espectador inerte, mas um sujeito eminentemente ativo e operante.

Os autores costumam ressaltar os perigos de uma pretensa mística, que conduz ao abandono voluntário da inteligência e da vontade.

É certo que Deus nos pode conceder a graça excecional da contemplação passiva dos místicos; isso, porém, só acontece por uma eleição gratuita exclusiva de Deus, sem cooperação de nossa parte, a não ser uma humilde prontidão em fundir inteiramente a nossa vontade com a

divina, unindo-nos misticamente com Deus.

Se, entretanto, procuramos culpavelmente provocar em nós mesmos essa passividade da vontade (por exemplo, por meio do hipnotismo, do transe, do uso de estupefacientes e narcóticos de vários tipos, de técnicas corporais ou espirituais), podemos nos transferir ao mundo do pretersensível, como acontece no sono e na contem plação mística; mas esse estado, ao invés de nos elevar nas vias luminosas dos êxtases, pode arrastar-nos para baixo, rumo a escuros abismos, onde não encontraremos anjos e sim demônios, que nos tratarão como presas sem

vontade, podendo levar-nos à possessão.

De onde o perigo de certas escolas ou correntes que se apresentam como meras técnicas de meditação, de concentração espiritual ou coisa parecida, as quais, infelizmente, têm encontrado aceitação até mesmo em setores e movimentos católicos. (Escrevem Noldin-Schmitt: “As Gnoses modernas que seguem teósofos e antropósofos e as técnicas de meditação e concentração hinduístas (ioga, budismo), que buscam conhec er ordens superiores não estão isentas de influxo demoníaco, especialmente quando diretamente buscados” (H. NOLDIN-A. SCHMITT, Summa Theologiae Moralis, II, nn, 1 48ss, pp 138-155).)

Evitar toda superstição, refrear a vã curiosidade,

Por fim, é preciso evitar qualquer forma de superstição, de curiosidade malsã e às vezes mórbida com relação ao mundo do Além.

Aquilo que Deus quis que soubéssemos a esse respeito, Ele, em sua bondade e misericórdia, revelou aos homens e colocou essa Revelação sob a guarda e a interpretação da Santa Igreja. E aí que devemos procurá-la, de acordo com nossas capacidades, e não nas falácias de advinhos e de médiuns, com risco de entrar em promiscuidade com os espíritos infernais.

Quanto ao nosso futuro imediato, terreno, também devemos respeitar o mistério no qual Deus o mantém envolto. Podemos rezar pedindo-Lhe que nos esclareça algo, se essa for a Sua vontade e se isso for útil para nossa eterna salvação. Porém, ir mais longe é correr o risco de cair em superstição e assim ficarmos expostos ao demônio, como também faltar com a confiança em Deus, que sabe melhor do que nós o que nos convém conhecer. Devemos antes agradecer-Lhe por nos poupar tantas angústias, escondendo-nos hoje os males e preocupações de amanhã. Como disse o Salvador:”A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6, 34).

Exorcismo: aspectos históricos

“Se eu, porém, lanço fora os demônios pela virtude do

Espírito de Deus, é chegado a vós o reino de Deus”.      (Mt 12, 28)

OS EXORCISMOS constituem a grande arma (ou remédio específico) da Igreja e dos fiéis contra a ação extraordinária do demônio — isto é, a infestação e a possessão. Para melhor compreender o que são os exorcismos convém estudar sua origem, natureza e história.

O poder exorcístico, sinal do Reino de Deus

Jesus dá como característica do Reino de Deus por Ele fundado a expulsão de satanás e dos seus demônios, e transmite este carisma exorcístico aos seus Apóstolos, à sua Igreja.

Aos judeus incrédulos disse Jesus: “Se eu, porém lanço fora os demônios pela virtude do Espírito de Deus, é chegado a vós o reino de Deus” (Mt 12, 28). “Se eu, pelo dedo de Deus lanço fora os demônios, certamente chegou a vós o reino de Deus” (Lc 11, 20 ).

Após a Ressurreição, pouco antes de subir aos Céus, Nosso Senhor enviou os Apóstolos pregar o Evangelho por todo e fez a seguinte promessa: “E eis os milagres que acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome…”(Mc 16, 17).

O Salvador destruiu as obras diabólicas, triunfou sobre Satanás e, com a humilhação levada até a própria morte na cruz, mereceu um nome superior a qualquer outro nome, por cuja invocação todos os joelhos se dobram, seja dos seres celestes, terrestres ou infernais:

“ Deus o exaltou (a Jesus) e lhe deu um nome que está acima de todo o nome; para que, ao nome de Jesus, se dobre todo o joelho no céu, na terra e no inferno” (Filip 2, 9-10).

“Santo e terrível é o seu nome!” — exclamara profeticamente o Salmista (Sl 110,9).

Ao comunicar depois o poder exorcístico, Jesus recordou expressamente que a eficácia dele provém, de um modo todo especial, da utilização do Seu nome (cf. Mc 16, 17); de modo que invocá-Lo sobre os endemoniados equivale a esconjurá-los e libertar a pessoa pela mesma

virtude de Cristo.

Santos Padres repetidamente exaltam a potência de um tal remédio. São Justino, por exemplo, nos diz: “Invoquemos o Senhor, de cujo simples nome os demônios temem a potência; e ainda hoje esconjurados em nome de Jesus Cristo… se submetem a nós … Todo demônio

esconjurado no nome do Filho de Deus … permanece vencido e atado”. (Apud Mons. C. BALDUCCI, Gli Indemoniati, p. 86.)

O ministério exorcístico de Jesus e dos Apóstolos

A libertação dos possessos ocupa um lugar tão saliente na vida pública do Salvador que os Evangelistas, de tempos em tempos, resumem seu ministério por frases como as seguintes: “E caindo a tarde, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio… e Ele

expulsava numerosos demônios… Ele pregava nas sinagogas em toda a Galiléia, e expulsava os demônios” (Mc 1, 32-34; 39) “Apresentavam-lhes todos os que estavam doentes…, e os possuídos do demônio, e Ele os curava” (Mt 4, 23-24). “Jesus curava muitas pessoas que tinham

doenças e espíritos malignos” (Lc 7, 21). Acompanhavam o Mestre “algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de doenças, entre elas Maria, chamada

Madalena, da qual tinham saído sete demônios” (Lc 8, 2). O próprio Jesus sintetiza as várias formas de sua atividade do modo seguinte: “Eis que eu expulso os demônios e opero curas” (Lc 13, 32). São Pedro repete a mesma idéia ao resumir a vida do Mestre para o centurião

Cornélio: “Ele passou fazendo o bem e curando todos os que estavam sob o império do diabo” (At 10, 38).

O tom imperativo, as fórmulas de um laconismo autori absoluto que não admite réplica, com que Jesus se dirigia mônios, e a prontidão com que estes obedeciam sem sombra sisténcia, indicavam bem que Ele falava “como quem tinha dade” (Mc 1,22), como Deus e Senhor.

Já em sua vida terrena o Salvador, associando os Após Discípulos ao seu ministério de evangelização, conferiu-lhes mente o poder sobre os demônios. Em primeiro lugar, ao Apóstolos: “E, convocados os seus doze discípulos, deu-lhe poder sobre os espíritos imundos para os expelirem” (Mt 10, 6, 7; Lc 9, 1). E, logo depois, aos Setenta Discípulos: “E os (discípulos) voltaram alegres, dizendo: Senhor, até os denzôi nos submetem em virtude de teu nome” (Lc 10, 17).

Depois da Ascensão, vemos os Apóstolos e Discípulos e rem esse ministério exorcístico. Assim, São Paulo expulsa o nio de uma mulher em Filipos, cidade da Macedônia, dizei espírito imundo: “Ordeno-te, em nome de Jesus, que saias (mulher). E ele, na mesma hora, saiu”

(At 16, 18).

Era tal a força do exorcismo em nome de Jesus, que exorcistas judeus quiseram imitar os Apóstolos e Discípulos. ocorreu com os filhos de Ceva, príncipe dos sacerdotes, na de Efeso. Tendo invocado sobre um possesso o nome “de .i quem Paulo prega ‘Ç o espírito maligno

os interpelou pela b possesso: “Eu conheço Jesus, e sei quem é Paulo; mas vós, sois?” E o energúmeno, atirando-se sobre dois deles, agarrou-os e “maltratou-os de tal maneira que, nus e feridos, fugiram daquela casa” (At 19, 13-16).

Além dessas referências gerais, os Evangelhos relatam sete casos especiais de expulsão do demônio por Jesus: 1º o endemoniado de Cafarnaum (Mc 1,21-28; Le 4. 31-37); 2º um possesso surdo-do-mudo, cuja libertação deu lugar à blasfêmia dos fariseus (Mt 12, 22-23; Lc 11,14); 3° os endemononiados de Gerasa (Mt 8, 28-34; Mc 5, 1-20; Lc 8, 26-39); 4º o possesso mudo (Mt 9,32-

34); 5º a filha da Cananéia (Mt 15, 21-28; Mc 21-20 ); 6º o jovem lunático (Mt 17, 14-20; Mc 9,13-28; Lc 9,37-44); 7° a mulher paralítica (Lc 13, 10-17).

O poder exorcístico dos Apóstolos se manifestava não só por sua ação direta, mas também através de objetos neles tocados: “E Deus fazia milagres não vulgares por mão de Paulo; de tal modo que até sendo aplicados aos enfermos lenços e aventais que tinham sido tocados no

seu corpo, não só saíam deles as doenças, mas também os espíritos malignos se retiravam” (At 19, 11-12).

Esse poder sobre o demônio, Jesus o comunicou a todos os seus seguidores, de modo geral, e à sua Igreja, de modo particular.

Na Igreja primitiva

Nos primeiros séculos da Igreja, o poder exorcístico

carismático cpncedido por Jesus aos Apóstolos e aos

Discípulos (Mt 10, 1 e 8; Mc 3, 14-15; Mt 6,7; 10, 17-20),

e prometido mais tarde, antes da Ascensão, a todos os

cristãos (Mc 16, 17), era muito difundido inclusive entre

os simples fiéis, por um desíginio particular da Divina

Providência, que assim facilitar nos inícios a difusão da

fé cristã.

Todos os cristãos, clérigos ou simples fiéis, expulsavam os demônios; o fato era tão generalizado, que

constituía até um argumento utilizado pelos apologistas para provar a divindade do Cristianismo.

Os testemunhos são numerosos nos Santos Padres e escritores eclesiásticos, tanto ocidentais como orientais.

Com o correr do tempo e estabelecida já a Igreja, esse poder exorcístico carismático foi diminuindo, porém não desapareceu totalmente da Igreja, como o testemunham a vida dos santos e as crônicas missionárias. Em todas as épocas houve servos de Deus que pela sua simples

presença ou pelo contato de algum objeto que lhes pertencia, ou ainda por intermédio de qualquer relíquia sua, muitas vezes expulsaram os demônios, ou dos corpos que eles molestavam, ou dos lugares por eles infestados.

A figura do exorcista

Exorcista (do grego eksorkistés) é aquele que pratica exorcismos sobre pessoas ou lugares que se acredita estarem submetidos a algum influxo ou ação extraordinária do demônio; em outros termos, é aquele que, em nome de Deus, impõe ao demônio que cesse de exercer influxos

maléficos em um lugar ou sobre determinadas pessoas ou coisas. Em um sentido mais estrito, a palavra exorcista, na praxe recente da Igreja latina (até 1972), indicava quem havia recebido a ordem menor do exorcistado, que conferia o poder de expulsar os demônios, ou seja, de realizar

exorcismos.

Atualmente, chama-se Exorcista o sacerdote que recebe do bispo a incumbência e a faculdade de fazer exorcismos sobre possessos. Ele só pode usar dessa faculdade de acordo com as normas estabelecidas, as quais serão vistas adiante. Muitas dioceses têm pelo menos um

exorcista permanente; em outras, o bispo nomeia exorcistas conforme ocorram os casos em que sua intervenção se faz necessária.

Nos primeiros séculos, sendo muito difundido na Igreja, mesmo entre os simples fiéis, o poder carismático de expulsar os demônios, não havia uma disciplina especial para os exorcismos sobre os endemoniados, nem uma categoria especial de pessoas eclesiásticas incumbi das de praticá-los em nome da Igreja.

Desde cedo, porém, se estabeleceu um cerimonial para os exorcismos batismais — isto é, aqueles que se procediam sobre os catecúmenos, como preparação para o Batismo; e logo se constituiu uma classe particular de pessoas para proceder a eles. Era a ordem menor dos

exorcistas que surgia na Igreja latina, com a incumbência, num primeiro momento, de realizar apenas os exorcismos batismais, e não aqueles sobre os possessos, os quais, como ficou dito, eram feitos por qualquer fiel, sem mandato especial.

Com o passar do tempo e com a consolidação e expansão da Igreja, a freqüência do poder exorcístico carismático foi diminuído, se bem que de forma desigual conforme os lugares; os fiéis se voltaram então, nos casos de infestação ou possessão demoníaca, para as pessoas

revestidas do poder de ordem — isto é, os diáconos, os sacerdotes e os bispos — e igualmente, como era natural, exorcistas dos catecúmenos.

A Igreja sancionou essa prática com o seu poder ordinário, conferindo a tais exorcistas também a faculdade e o poder de exorcizar possessos.

Entretanto, devido à dificuldade no diagnosticar a possessão, bem como por causa da delicadeza e importância de um tal oficio, a Igreja foi limitando pouco a pouco o exercício desse poder a um número restrito de pessoas. Uma carta do Papa Santo Inocêncio I a Decêncio

, bispo de Gubbio (Itália), do ano de 416, supõe já que os exorcismos sobre possessos eram feitos em Roma unicamente por sacerdotes ou diáconos que para isso tinham recebido autorização episcopal.

O exorcistado passará a ser considerado desde então somente como um dentre os vários graus através do qual o futuro sacerdote se preparava para as ordensmaiores. Embora essa ordem menor concedesse sempre um poder efetivo sobre Satanás, o exercício desse poder

ficava ligado a outros requisitos.

Essa disciplina, estabelecida pelo menos desde oséculo V, foi prevalecendo com o tempo em toda a Igreja do Ocidente, até tornar-se norma universal, e assim chegou até os nossos dias com o Código de Direito Canônico de 1917 (cânon 1151) e o novo Código de 1983 (cânon 1172), os quais mantiveram a reserva dos exorcismos sobre possessos unicamente a sacerdotes delegados para tal respectivo Ordinário, o qual deve considerar neles especiais dotes de virtude e ciência.

Quanto à ordem menor do exorcistado, ela confinou a existir como preparação ao sacerdócio na Igreja latina até ser completamente abolida por Paulo VI em 1972, juntamente com as demais ordens menores.

Nas Igrejas orientais, o oficio de exorcista era conhecido desde o século IV, porém não constituía uma ordem menor e seus membros não faziam parte do clero.

Exorcismo: O que é?

“Nós te exorcizamos, espírito imundo…

em nome e pelo poder de Jesus (+) Cristo…”

(Exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas)

OS EXORCISMOS CONSTITUEM atos insignes de fé religião e de religião, pois supõem a crença no poder soberano de Deus sobre os demônios, sendo mesmo uma aplicação prática dessa crença.

No presente capítulo aprofundaremos um pouco mais a noção de exorcismo, em que consistem, qual o seufundamento teológico e a sua eficácia, como se dividem e sobre quem podem ser feitos.

Noção e divisão

Os exorcismos não são simples orações a Deus, á Virgem aos anjos e santos pedindo que nos livrem dos ataques do Maligno, ou graças para enfrentá-los. Isso é necessário, sem dúvida, mas constitui apenas um dos recursos ordinários à disposição de qualquer pessoa. Os exorcismos são mais do que isso: são um ato pelo qual o exorcista, pela autoridade da Igreja ou pela força do nome de Deus, impõe ao demônio que obedeça e cesse a presença ou atuação nefasta que está exercendo sobre lugares, coisas ou pessoas.

Assim, fazem-se exorcismos sobre lugares e coisas(incluindo aí o reino vegetal e o reino animal, e também os elementos atmosféricos), com os quais se proíbe que o demônio exerça más influências sobre eles (infestação local); praticam-se igualmente exorcismos sobre pessoas

atormentadas ou perturbadas pelos espíritos malignos (infestação pessoal) ou até possuídas por eles (possessão diabólica), que têm a finalidade de libertar essas pessoas das influências maléficas e do poder e domínio de Satanás.

No caso das criaturas irracionais, a adjuração se dirige mais propriamente àquele que queremos mover; isto é, ou se dirige a Deus, a modo de súplica, para que evite que essas criaturas sirvam de instrumento do demônio; ou se dirige ao demônio, impondo-lhe que deixe

ou cesse de se servir delas. E este é o sentido da adjuração da Igreja nos exorcismos e também nas bênçãos deprecatórias contra ratos, gafanhotos, vermes e outros animais nocivos.

Os exorcismos podem ser divididos segundo vários critérios. Assim, no que diz respeito à solenidade com que se fazem, os exorcismos se classificam em solenes e simples.

Os exorcismos solenes, também chamados exorcismos maiores, são àqueles feitos sobre pessoas possessas, e visam libertá-las do domínio exercido sobre elas pelo espírito do mal. Constituem o exorcismo-tipo, isto é, o que que retém o sentido mais estrito da palavra e se

encontram no Ritual Romano.(Rituale Romanum, tit. XI c. 2: Ritus exorcizandi obsessos a daemonio — Rito para exorcizar os possessos pelo demônio.)

Os exorcismos simples são de dois gêneros:

  1. a) aquele feito para impedir ou coarctar o influxo do demônio sobre as pessoas, coisas e lugares (infestação pessoal ou local), chamado Exorcismo de Leão XIII ou pequeno exorcismo, contido igualmente no Ritual; (Rituale Romanum, tit. XI c. 3: Exorcismus in satanam et angelos

apostaticos — Exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas.)

  1. b) exorcismos vários, que se efetuam nas cerimônias do Batismo solene, na bênção da água e do sal e na consagração dos Santos Óleos, etc (encontram-se no Ritual Romano e livros litúrgicos correspondentes).

O principal critério, entretanto, para a divisão dos exorcismos é aquele referente à autoridade em nome da qual e por cujo poder se fazem. De acordo com esse critério, os exorcismos se dividem em pública e privados, segundo sejam feitos em nome e pela autoridade da Igreja,

no primeiro caso, ou em nome do próprio exorcizante, no segundo. Essa distinção é fundamental para as considerações que vêm adiante.

Origem e fundamento teológico do poder exorcístico

O homem não tem nenhum poder natural sobre os demônios uma vez que estes, embora decaídos, não perderam sua natureza angélica. Por isso tem que recorrer, obrigatoriamente, a uma natureza superior à deles para livrar-se dos ataques e insídias dos espíritos malignos.

Por natureza, os demônios dependem exclusivamente de Deus, única natureza acima da angélica.* Só Deus tem um poder absoluto sobre todas as criaturas; portanto, só Ele pode dominar de modo absoluto sobre os demônios. Contudo, Ele pode conferir a quem desejar

o poder de dominar sobre os demônios, pela virtude de Seu Nome. Por isso, a força coercitiva dos exorcismos e a garantia de sua eficácia — assim como a sua liceidade — estão em serem praticados em nome de Deus e por aqueles que dEle receberam tal poder.

*Algum anjo poderia ter uma natureza mais elevada do que a de Lúcifer; entretanto, se gundo a crença comum, Lúcifer teria sido o anjo mais elevado, naturalmente falando, estando assim, por natureza, acima de todos os demais anjos. Quanto aos outros demônios, alguns são mais elevados, outros menos, que os anjos bons, estando pois, no que se refere á pura natureza, acima ou abaixo deles. Pela graça, todos os anjos bons estão acima dos demônios — inclusive de Lúcifer — ainda que inferiores em natureza.

A quem conferiu Deus tal poder sobre os demônios?

Em primeiro lugar, Cristo conferiu à Sua Igreja, por meio dos Apóstolos, um “poder sobre os espíritos imundospara os expelir” (Mt 10, 1; Mc 6,7; Lc 9, 1). E o que se chama poder exorcístico ordinário da Igreja.

Além disso, alguns cristãos — sacerdotes ou mesmo simples fiéis — recebem de Deus um carisma de expulsar os demônios. É o que se chama poder exorcístico carismático.*

* Chama-se poder carismático aquele que deriva de um carisma. Os carismas são dons gratuitos, extraordinários e em geral transitórios, concedidos por Deus a algumas pessoas, não tanto para proveito próprio delas (embora possam contribuir para sua santificação), mas

sobretudo para o bem do próximo e a edificação da Igreja. O fundamento da doutrina sobre os carismas se encontra em São Paulo (cf. 1 Cor 12, 7; Ef. 4, 12, Rom 12 6-8). Os teólogos distinguem três classes de carismas: dons de governo, dons de ensino e exortação e dons de assistência corporal. Entre estes últimos estão os dons de cura, dos quais uma espécie é o de expulsar os demônios, o que constitui uma forma de cura.

Por fim, os teólogos explicam que existe um outropoder exorcístico, que tem sua origem e fundamento numa apropriação do poder exorcistico por parte de qualquer fiel, “seja motivada pela vida que Cristo Nosso Senhor obteve sobre Satanás, seja da união com Ele pela fé ao menos atual”. (Mons. C. BALDUCCI, Gli indemoniati, pp. 90-91; El diablo, p. 256.)

Com efeito, todo cristão pode fazer uso do poder exorcístico que Cristo prometeu genericamente a todos os que crerem nEle, quando disse: “E eis os milagres que

acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome” (Mc 16, 17). Ou então aplicar a si mesmo aquela outra promessa ainda mais ampla: “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará outras ainda maiores”

(Jo 14, 12). Ora, entre as obras de Jesus destaca-se a expulsão dos demônios e a vitória final sobre Satanás. Finalmente, pode fazer valer para si aquele poder concedido por Nosso Senhor aos Seus seguidores: “Eis que eu vos dei poder de calcar serpentes e escorpiões e toda a

força do inimigo, e nada vos fará dano” (Lc 10, 19).

De onde poder-se indicar um tríplice título ou fundamento teológico do poder exorcístico:

  1. uma concessão ordinária feita por Cristo à sua Igreja;
  2. uma comunicação carismática extraordinária a alguns de seus servidores, independentemente de pertencerem ou não ao clero;
  3. uma apropriação de tal poder por parte de qualquer fiel.

Dessas três vias, a primeira constitui o fundamento dos exorcismos públicos, enquanto as duas últimas fundamentam os exorcismos privados.

Daí se deduz a eficácia de uns e de outros, como veremos a seguir.

Eficácia dos exorcismos

Exorcismos públicos

Há uma diferença relevante entre os exorcismos públicos e os privados; no primeiro caso, o exorcismo será um sacramental,* que não ocorre com os últimos.

* Por sacramentais entendem-se certas coisas sensíveis (água-benta, velas bentas, Agnus Dei, medalhas) ou certas ações (bênçãos, exorcismos, consagrações, etc.) da quais a Igreja se serve pata obter determinados efeitos especialmente espirituais. A força dos sacramentais vem

do poder de intercessão da Igreja.

Enquanto sacramentais, os exorcismos públicos têm uma eficácia toda particular, que depende não só das disposições do exorcista e do paciente, mas também e principalmente da oração da Igreja, a qual tem um especial valor impetratório junto a Deus.

A eficácia dos exorcismos públicos, se bem que muito grande, não é infalível; e isto porque as orações mesmas da Igreja, segundo a economia ordinária que Deus segue no atendê-las, não têm efeito infalível; e também porque o poder da Igreja sobre os demônios não é absoluto mas condicionado ao beneplácito do poder divino, que às vezes pode ter justos motivos para retardar

ou proibir a saída deles de um lugar ou de uma pessoa. Este valor condicionado, porém, não está minimamente em contradição com a forma imperativa do exorcismo, pois que a condição diz respeito à vontade divina, não à demoníaca, a qual de si, está plenamente sujeita ao poder

da Igreja.

Exorcismos privados

Os exorcismos privados não constituem um sacramental como o público, isto é, não contam com a força intercessora da Igreja. Assim, a sua eficácia vem ou da força do carisma por base a fé na promessa feita pelo Salvador.

A eficácia do poder exorcístico carismático é segura, infalível, uma vez que o próprio Deus, ao conceder o carisma, garante, por meio de uma inspiração, que o uso desse carisma está conforme com os Seus desígnios, e obterá, por conseguinte, o efeito qual foi concedido.*

*Segundo os teólogos, Deus concede o dom do carisma com muita parcimônia; de modo que se deve proceder com muita prudência, antes de concluir que alguém é possuidor de algum carisma; maior prudência ainda é exigida da própria pessoa que presume ser possuidora de algum deles. Os autores de teologia ascética e mística, seguindo o ensinamento de São João da Cruz, aconselham a não se desejar nem pedir graças e dons extraordinários: deve bastar-nos a via normal; pois esses dons não são necessários para alcançar a salvação e a perfeição cristã, e até, ao contrário, por causa de nossas más inclinações, podem servir de obstáculo a elas. Por

outro lado, é muito freqüente o demônio imiscuir-se nessas vias extraordinárias, de maneira que nem sempre é fácil distinguir o que vem do Espírito de Deus e o que vem do espírito das trevas.

No caso da apropriação do poder exorcístico por parte do fiel, ao contrário, a eficácia resulta inferior àquela do exorcismo público, pois falta-lhe a força impetratória da Igreja, por não constituir ele um sacramental. Em conseqüência, a eficácia do exorcismo privado não carismático

depende muito da virtude — sobretudo da fé – daquele que o pratica, condicionada sempre ao divino beneplácito.

É preciso acentuar, como acima ficou dito, que muitas vezes os exorcismos não têm efeito, não pela falta de fé da pessoa exorcizante, ou pelo poder dos demônios, mas pelos desígnios de Deus, seja para castigo, seja para a purgação e santificação da vítima, ou por outro motivo

que só Ele conhece.

A quem exorcizar?

Número infinito de infelizes atormentados pelo demônio

O Ritual Romano reserva os exorcismos solenes somente às pessoas que dêem sinais inequívocos de possessão. Mas os exorcistas ( e não só eles, também osdemais sacerdotes) se deparam com casos muito mais freqüentes de pessoas que, sem estarem propriamente

possessas, estão sofrendo vexações do demônio.

O Pe. Joseph de Tonquédec S.J., que por mais de vinte anos foi exorcista da arquidiocese de Paris e grande demonólogo, escrevia, já em 1948. “A questão que vamos tratar não é do campo da psicologia ou da experiência em geral; ela é propriamente teológica.

“O que nos levou a refletir sobre ela foi a insistência de um número infinito de infelizes que, não apresentando os sinais de possessão diabólica, não se comportando como possessos, recorrem, entretanto, ao ministério doexorcista para serem libertados de suas misérias: doenças rebeldes, azar, infelicidade de toda espécie.

“Enquanto os possessos são muito raros, os pacientes dos quais falo são legião. Não seria legítimo tratálos como possessos, uma vez que, em toda evidência, elesnão o são. Por outro lado, eles não são também, sempre e necessáriamente, doentes mentais sobre os quais um

tratamento psiquiátrico teria chance de dar certo…

“Em qualquer caso, estamos simplesmente em presença de infelizes de toda espécie, cujas queixas nos fazem compreender a gama dos infortúnios humanos. Tomados de pena por eles, nós nos perguntamos a que meios recorrer para os ajudar.

“Então nos vêm à lembrança certas páginas dos nossos Santos Livros, certas orações ou práticas litúrgicas que supõem a influência do demônio, presente muito além das regiões onde temos o costume de o confinar”.

O autor recomenda que nesses casos se usem os sacramentais (água-benta, sal bento), orações, bênçãos, o Exorcismo de Leão XVIII (Exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas), etc. (J. de TONQUEDEC S.J., Quelques aspects dei l‘action de Satan eu ce monde, p. 493.)

Por seu lado, o exorcista da diocese de Roma, Pe. Gabriele Amorth, comenta:

“Atualmente o Ritual considera diretamente só o caso de possessão diabólica, ou seja, o caso mais grave e mais raro. Nós exorcistas nos ocupamos, na prática, de todos os casos nos quais percebemos uma intervenção satânica: os casos de infestação diabólica (que são muito mais numerosos do que os casos de possessão) , os casos de infestação pessoal, de infestação de casas e ainda outros casos nos quais temos visto a eficácia das nossas orações. … Por exemplo, não são claros os confins entre possessos e infestados; tampouco são claros os confins entre infestados e vítimas de outros males: males físicos que podem ser causados pelo Maligno; males

morais (estados habituais de pecado, sobretudo nas formas mais graves), nos quais certamente o Maligno tem sua parte. Por exemplo tenho visto às vezes vantagem em usar o exorcismo breve na ajuda ao sacramento da Confissão nas pessoas endurecidas em certos pecados, como os homossexuais. Santo Afonso, o Doutor da Igreja para a Teologia Moral, falando para os confessores, diz que antes de qualquer coisa o sacerdote deve exorcizarprivadamente quando se encontra diante de algo que possa ser infestação demoníaca” (G. AMORTH, Un esorcista

racconta, pp. 199-200.)

Uso freqüente dos exorcismos simples e dos exorcismos privados

Nesses casos a solução parece estar no uso mais freqüente dos exorcismos (públicos) simples (que são sacramentais e por isso têm a uma força própria, que é a da Igreja), por parte dos sacerdotes — tanto exorcistas como não-exorcistas, já que não exigem delegação especial —

sobre todas essas pessoas que, sem serem possessas, são perseguidas ou influenciadas pelo demônio.

É o que recomendam os Moralistas; assim os jesuítas Pes. H. Noldin e A. Schmitt:

“Deve-se persuadir muitíssimo os ministros da Igreja a que mais freqüentemente façam uso do exorcismo simples, lembrando-se das palavras do Senhor: Em meu nome expulsarão os demônios; façam uso sobretudo sobre aqueles que sejam objeto de tentação veemente

sobre penitentes nos quais percebem dificuldades em excitar a dor e os propósitos a respeito dos pecados, ou em manifestar sinceramente os seus pecados. Podem utilizar esta fórmula ou semelhantes: Eu te ordeno, em nome de Jesus, espírito imundo, que te afastes desta criatura de

Deus” (H. NOLDIN S.J. – A. SCHMITT S.J. – G. HEINZEL S.J., Summa Theologiae Moralis, p. 43.)

Nada impede — como veremos — que em tais circunstâncias também os leigos pratiquem exorcismos privados, não só sobre si mesmos, mas igualmente sobre terceiros importunados pelo demônio, observadas as cautelas que adiante se dirão. Pois as palavras de Nosso Senhor lembradas acima — Em meu nome expulsarão osdemônios — foram ditas a todos os fiéis.

Esse é o ensinamento também de São Tomás, citando outra passagem dos Evangelhos: “Podemos pois adjurar os demônios pelo poder do nome de Jesus, expulsando-os de nós mesmos como a inimigos declarados, a fim de evitar os danos espirituais e corporais que nos possam vir deles. Poder que nos deu o próprio Cristo: ‘Eis que eu vos dei poder de calcar serpentes e escorpiões e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano’ (Lc 10, 19)”. (Suma Teológica, 2-2, q. 90, a. 2.)

Exorcismo: legislação

“Sem licença peculiar e expressado Ordinário do

lugar,ninguém pode realizar legitimamente ente

exorcismos sobre os possessos”.      (Código de Direito Canônico)

DEPOIS DE VER a noção, o fundamento teológico

e a eficácia dos exorcismos, parece conveniente dar em

linhas gerais a legislação atualmente em vigor sobre a

matéria.

Das origens ao Código de Direito Canônico

Direito da Igreja de restringir poderes

A Igreja, detentora do poder das chaves, tem o direito de reservar aos sacerdotes certas práticas que, em si mesmas, teologicamente falando, poderiam ser realizadastambém por leigos, por não exigirem o poder de ordem. Assim foi com a distribuição da Sagrada Eucaristia, que

nos primeiros tempos era feita também por simples fiéis, sendo mais tarde reservada aos diáconos e sacerdotes e só recentemente voltando a ser permitida aos leigos, mediante licença do respectivo bispo.

Foi o que se deu igualmente com relação aos exorcismos sobre os possessos: nos primórdios da Igreja, quando a abundância de carismas era um fato, os fiéis expulsavam os demônios por força desses carismas, sem necessidade de recorrer aos sacerdotes e ao bispo.

Porém a partir já do século V, em vista de abusos, como também da diminuição dos carismas, ao mesmo tempo que decrescia o número de possessos pela expansão do Cristianismo, começou a reserva desses exorcismos apenas aos sacerdotes, e somente quandoautorizados pelo seu bispo. Essa norma foi-se estendendocom o tempo até que, finalmente, com o Código canônico

mandado elaborar por São Pio X e promulgado por Bento XV em 1917, se tornou lei universal. (Cf. Código de Direito Canônico (1917), cânon 1151 § 1.) O novo Código de Direito Canônico (1983) conservou essa norma: “Sem licença peculiar e expressa do Ordinário do lugar, ninguém

pode realizar legitimamente exorcismos sobre os possessos”. (Código de Direito Canônico, cânon 1172 § 1.)

Prudência da Igreja

Mons. Maquart, demonólogo francês, ressalta a prudência da Igreja ao reservar os exorcismos solenes sobre os possessos apenas aos padres autorizados: “Diversas razões levaram a Igreja a reservar muito estritamente a prática dos exorcismos solenes. A luta do exorcista contra o demônio não está isenta de perigos morais mesmos físicos, para o padre exorcista; a Igreja não quer e não pode expor desconsideradamente seus ministros”. (Mgr F. X. MAQUART, L’exorciste devant les manifestations diaboliques, p. 328.)

Entre as razões dessa reserva dos exorcismos sobre os possessos a sacerdotes que satisfaçam a certos requisitos — com a conseqüencia proibição aos leigos — os Autores enumeram as seguintes:

  1. Perigos espirituais e mesmo físicos a que o exorcista está exposto: tentações contra a fé, contra a pureza; agressões psíquicas ou mesmo físicas por parte do demônio…
  2. Necessidade de grande ciência, piedade e prudência para o confronto direto com o demônio: preparo para enfrentar as falácias, sofismas e embustes do pai da mentira; para saber como conduzir o exorcismo; para certificar-se de que o demônio saiu realmente do corpo

do possesso ao fim dele; e também para discernir a verdadeira possessão de outros fenômenos, até naturais, parecidos com ela, como estados mórbidos, alucinações, ilusões…

  1. Risco de se profanar o Nome de Deus, tomando-O em vão na falsa possessão, sendo o exorcismo a adjuração do demônio em nome de Deus a que abandone a criatura que possui ou infesta (a obrigatoriedade de recorrer ao bispo de cada vez conduz a que os casos estudados

com maior cuidado, os indícios examinados com maior prudência).

  1. Possibilidade de abusos, como exorcizar doentesmentais, com perigo de agravar seus males (pela grande tensão e esforço mental até físico que o exorcismo comporta, e pelo caráter impressionante deste); ganância (pedidos de remuneração, aceitação de presentes…); solicitações pecaminosas…

Se esses riscos existem para membros do clero (a tal ponto que a lei canônica estabelece que não sejam facultados para fazer exorcismos senão sacerdotes que tenham ciência, prudência e santidade de vida), que têm formação teológica, graça de estado, experiência pastoral, muito maiores serão para os leigos que, normalmente, não tem estudos especializados ou qualquer outro preparo.

Praticando o exorcismo

A legislação em vigor

Exorcismos solenes sobre possessos

Embora qualquer sacerdote (e mesmo, como veremos, qualquer fiel) seja teologicamente capaz de fazer exorcismos, mesmo sobre possessos, entretanto, desde há muitos séculos, a Igreja dá a faculdade de exorcizar solenemente (isto é, de fazer exorcismos sobre possessos)

só a sacerdotes distintos pela piedade e prudência, mediante uma expressa licença do Ordinário e com a obrigação de observar fielmente o disposto no Código deDireito Canônico e no Ritual Romano.

Os exorcismos sobre possessos (exorcismos solenes;), só podem ser feitos legitimamente:

  1. mediante licença peculiar (para cada caso concreto) e expressa (não pode ser presumida) do Ordinário do lugar. (CIC-83 cânon 1172 § 1; CIC- 17 cânon 1151, § 1.)
  2. essa licença não deve ser concedida senão a sacerdotes (não pode ser dada a leigos ou religiosos nãosacerdotes) de reconhecida piedade, prudência, ciênciae integridade de vida. (CIC-83 cânon 1172 § 2; CIC-17 cânon 1151 §2.)
  3. estes sacerdotes não procederão senão depois de constatar, mediante diligente e prudente investigação, que se trata realmente de um caso de possessão diabólica.(C1C- 17 cânon 1151 § 2; Ritual Romano, titulo XI, c. 1.)
  4. os exorcistas observarão cuidadosamente os ritos e as formulas aprovados pela Igreja. (C1C- 83 cânon 1167 § 2; cf. CIC-17 cânon 1148 § 1; Ritual Romano, título XI, c.2.)

Os exorcismos são feitos normalmente na igreja ou em algum outro lugar pio ou religioso, salvo os casos de enfermos ou a presença de motivos graves em contrário; não, porém, diante de um público numeroso. Sempre que os exorcismos devam fazer-se sobre uma mulher é necessário que assistam a ele parentes próximos ou mulheres de honestidade exemplar; e que a vítima esteja vestida decorosamente.

No exorcizar, o ministro deve ater-se ordinariamente às fórmulas do Ritual Romano, evitando em cada caso o uso de remédios ou de práticas supersticiosas.

Deve evitar absolutamente fazer perguntas não oportunas ou não adaptadas ao escopo, ou não necessárias, ou de mera curiosidade, bem como aquelas que visem a descobrir

acontecimentos futuros. Por outro lado, o exorcista deve perguntar ao demônio se ele está só ou com outros espíritos malignos, qual o nome deles, o tempo do início da possessão e a causa dela.

Os exorcismos podem ser realizados não apenas sobre possessos católicos, praticantes ou não, e até excomungados, mas também sobre pessoas de outras religiões ou de todo pagãs, desde que em cada caso se tenha uma certeza moral de que se trata de verdadeiros

endemoniados. (Código de Direito Canônico (1917), cânon 1152.)

Exorcismos em casos de infestação local e pessoal

No caso de infestações locais e pessoais, o Ritual Romano reserva a recitação do Exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas, publicado por ordem de Leão XIII, aos bispos e padres autorizados pelo bispo diocesano.(Rituale Romanum, tit. XII, c.3. ) (Como simples oração, pode

ser recitado por qualquer pessoa, sacerdote ou leigo, sem necessidade de nenhuma autorização especial.).

Além disso, um documento recente da Santa Sé transforma em norma disciplinar essa rubrica do Ritual, reiterando assim a proibição de os sacerdotes não autorizados pelos respectivos bispos – como também os leigos — utilizarem a referida fórmula (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Carta aos Ordinários de lugar, relebrando as normas vigentes sobre os exorcismos, 29

de setembro de 1985, in Acta Apocalipse Sedis, An. et vol. LXXVII, 2 Decembris 1985, N. 12, pp 1169-1170.)

O mesmo documento proíbe, ainda, ao sacerdote não autorizado pelo Ordinário, a presidência de “reuniões de libertação do demônio”, nas quais se dêem ordens diretamente ao demônio, ainda que não se trate propriamente de exorcismos sobre possessos, desde que pareça haver algum influxo diabólico. (Carta cit. § 3. )

Outros exorcismos

Os exorcismos que se efetuam nas cerimônias do batismo solene, na benção da água e do sal e na consagração dos Santos Óleos, apresentados no Ritual Romano e demais livros litúrgicos, podem ser feitos legitimamenteproceder às cerimônias em que eles ocorrem (por exemplo, os catequistas e outros ministros extraordinários do Batismo, mesmo que sejam leigos e até mulheres).

“Somos todos exorcistas”

“Em meu nome expulsarão os demônios.”      (Mc 16,17)

DO ATÉ AQUI EXPOSTO ficou claro que também os leigos podem proceder a exorcismos, pelo menos em certas circunstâncias e sob certas condições. O presente capítulo procura esclarecer qual a origem e o fundamento teológico do poder exorcístico específico dos leigos, bem como as condições em que legitima e eficazmente podemfazer uso dele.

Podem os leigos exorcizar?

Possibilidade teológica

A rigor, do ponto de vista teológico, nada impede que um leigo possa proceder eficazmente a exorcismos, mesmo sobre possessos. A explicação teológica já ficou insinuada acima, porém de modo fragmentário, pelo que parece oportuno aprofundá-la aqui.

Já vimos como, nos primeiros tempos, fiéis que não tinham recebido o caráter sacerdotal, nem tampouco carismas especiais, procediam aos exorcismos batismais. Esses fiéis foram incorporados ao clero, vindo a constituir a ordem menor dos exorcistas, e passando a exorcizar

também possessos; com o tempo, por uma série de razõeshistóricas e disciplinares, suas funções acabaram por ser absorvidas pelos sacerdotes, e o exorcistado,embora continuando conferir um poder efetivo sobre o demônio, ficou reduzido simples degrau para a recepção do sacerdócio, até ser abolido em 1972, junto com as demais ordens menores. Com a reforma litúrgica de Paulo VI

esse ministério, relativamente aos exorcismos batismais, passou a ser novamente confiado a leigos: os atuais catequistas e outros ministros extraordinários do Batismo.

Num e noutro caso – isto é, no dos primitivos exorcistas e no dos novos ministros extraordinários do Batismo — trata-se de fiéis que, como ficou dito, não receberam a ordenação sacerdotal (no segundo, esse ministério é confiado inclusive a mulheres), o que indica que tal ordenação não é teologicamente necessária para que alguém possa proceder eficazmente a exorcismos, mesmo em caráter oficial, isto é, em nome da Igreja.

Porém, não é a estes casos de pessoas delegadas pela Igreja que queremos nos referir, pois se poderia pensar que sempre é necessária alguma espécie de investidura eclesiástica para adquirir a capacidade teológica para exorcizar o demônio. O que investigamos aqui é se o

simples fiel, sem nenhuma investidura oficial, tem poderes – teologicamente falando – para proceder eficazmente aos exorcismos.

Poder dado pelo Batismo, pela Confirmação e pela Eucaristia

O homem não tem nenhum poder natural sobre Satanás e os espíritos infernais: se não fosse socorrido por Deus, ficaria inteiramente à mercê do Maligno. E, de fato, pelo pecado original, todos nos tínhamos tornado escravos dele. Nosso Senhor, na sua misericórdia, resgatou

nos da tirania do demônio por sua morte de Cruz. E Ele que participemos de sua luta, assim como nos associa ao seu triunfo. Isto se dá pelo Batismo, que nos incorpora a Cristo e nos faz partícipes de sua luta e de sua vitória. Pois o corpo participa de toda a vida da Cabeça. Eis aí o título fundamental que nos faz exorcistas a todos os batizados.

É por isso que Dom Pellegrino Ernetti 0.S.B. — exorcista da arquidiocese patriarcal de Veneza dá ao capítulo final de seu livro o seguinte título: “Somos todos exorcistas “.

Escreve Dom Pellegrino: “As orações e o exorcismo preventivo são inerentes ao próprio estado de ser cristão, enquanto batizado, crismado e que vive a vida da Eucaristia. Do caráter batismal lhe provém já o título de verdadeiro lutador contra Satanás. E a própria oração do Pai-Nosso lhe confere o título válido para lutar em forma preventiva. O cristão não somente tem o estrito dever de soldado e seguidor de Cristo, o qual veio á terra para expulsar e destruir a obra do demônio, mas tem inclusive o direito de participar nesta luta, direito sempre proveniente, seja

do caráter batismal, seja crismal, e, nutrido de Jesus na mesa eucarística, se torna sempre mais forte para obter a vitória, juntamente com seu Rei e Vencedor, Cristo. “Portanto: todos somos exorcistas, lutadores e vencedores de Satanás! Como exorcista, o fiel no faz outra coisa senão exercitar o seu jus nativum, consubstanciado no sacerdócio comum dos fiéis”. (D. Pellegrino ERNETTI O.S.B., La Catechesi di Satana, pp. 245-246)

Teológicamente falando — e abstraindo igualmente de carismas extraordinários —, todos os fiéis somos, pois, exorcistas, sem que seja necessária nenhuma espécie de investidura eclesiástica para adquirir a capacidade para exorcizar o demônio. Essa capacidade está in radice

no Batismo, que nos faz filhos de Deus, membros do Corpo Místico de que Cristo é a Cabeça; e é reafirmada pela Confirmação, que nos faz soldados de Cristo e nos dá, junto com o dever de lutar por Ele, a capacidade para tal combate; e é alimentada pela Eucaristia.

Porém, esse poder exorcístico, por sábias razões de prudência, está limitado pela leis da Igreja, como se verá a seguir.

Limitações canônicas

Se não existem empecilhos de natureza teológica para que um leigo possa praticar exorcismos, ocorrem entretanto impedimentos de natureza canônica, isto é, de lei positiva da Igreja.

O primeiro deles é a proibição de praticar exorcismos sobre possessos, os quais, como ficou exposto anteriormente, são reservados aos sacerdotes devidamente autorizados pelo respectivo bispo.

Outra restrição diz respeito ao emprego da fórmula do chamado Exorcismo de Leão XIII, reservada para os bispos e sacerdotes autorizados.

Os simples fiéis também não devem realizar sessões de exorcismos nas quais se interpele diretamente o demônio, ainda que não se trate de casos de possessão propriamente dita, desde que se suspeite de presença demoníaca? (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ,

Carta aos Ordinários de lugar, relembrando as normas vigentes sobre as exorcismos, 29 de setembro de 1985.)

Quando e como os leigos podem exorcizar

Nas infestações locais ou pessoais

Então os leigos ficam à mercê dos ataques do demônio, já que não podem exorcizar os possessos?

De nenhum modo. Convém lembrar que a principal defesa contra o demônio é a graça de Deus, que se recebe no Batismo e se recupera na Confissão, sendo alimentada pelos sacramentos, sacramentais, boas obras e vida de piedade. Portanto, mesmo que um leigo possa fazer exorcismos sobre possessos, ele não está indefeso diante do demônio.

É preciso recordar ainda que a possessão, de si, não é um obstáculo à salvação nem à santificação das pessoas, podendo mesmo ser uma provação útil para a vida espiritual da vítima, ou de seus familiares e amigos e mesmo do próprio exorcista.

Cabe considerar, ainda, que a possessão não é a ofensiva extraordinária, mais freqüente do demônio. Excetuando a tentação (que é uma ofensiva ordinária), os Autores dizem que a ofensiva extraordinária mais corrente é a infestação tanto local como pessoal. Eles dizem que é grande o número de pessoas que procuram os exorcistas por estarem atormentadas pelo demônio, sem que, entretanto, se trate de casos de possessão. E que se sentem aliviadas com exorcismos simples ou apenas com bênçãos e outros remédios espirituais.

Ora, com relação à infestação local e mesmo pessoal, não existe na legislação canônica nenhuma proibição: os leigos podem fazer exorcismos privados, desde quenão empreguem a fórmula do Exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas (o chamado Exorcismo de Leão XIII),

nem “se interpele diretamente o demônio, e se procureconhecer sua identidade”. E o que adverte a Congregação para a Doutrina da Fé, no documento acima citado. (CONGREGAÇÃO

PARA A DOUTRINA DA FÉ, Doc, cit.)

Portanto, nos casos menos raros de ação demoníaca extraordinária, isto é, nas infestações locais e nas pessoais, os fiéis não estão indefesos, em decorrência da regulamentação dos exorcismos estabelecida pelo Código de Direito Canônico e por documentos da Congregação

para a Doutrina da Fé. Além dos remédios gerais, ordinários, podem eles, com as cautelas adiante indicadas, fazer uso do remédio extraordinário do exorcismo privado.

Para repelir as tentações e perturbações do demônio

Não é apenas em casos ou situações de certo modo extremas, que os leigos são livres para proceder a exorcismos privados. Eles os podem praticar preventivamente sempre que se sentirem tentados ou perturbadospelo demônio.

É o que ensinam os moralistas e canonistas. Por exemplo escreve o Pe. Felix M. CAPPELLO S.J.: “O exorcismo privado pode ser realizado por todos os fiéis. Porque qualquer um pode, para repelir as tentações ou perturbações do demônio, ordenar a ele, por Deus ou Jesus Cristo,

que não prejudique a si ou a outros. O efeito desse exorcismo não deriva da autoridade e preces da Igreja, uma vez que não se faz em seu nome, mas somente pela virtude do nome de Deus e Jesus Cristo”. (Felix M. CAPPELLO S.J.. Tractatus Canonico-Moralis DE SACRAMENTIS. p.84).

No mesmo sentido escreve o Pe. Marcelino ZALBA S.J.: “Exorcismos: … privados imperativamente (pode ser feito) por qualquer um, somente para coarctar a influência dos

demônios…”(Marcelino ZALBA S.J., Theologiae Moralis Compendium, p. 661).)

É igualmente o que diz o exorcista de Veneza, D. Pellegrino Ernetti: “Para todas as outras atividades demoníacas acima elencadas [tentações, infestações locais e pessoais], todos os batizados e crismados, indistintamente, têm o munus e o dever de lutar juntamente com Jesus

para debelar o inimigo infernal”. (D. Pellegrino ERNETTI O.S,B., La Catechesi di Satana, pp. 247-249.)

Em resumo: os simples fiéis podem, e até devem, realizar exorcismos privados nas tentações ou infestações demoníacas; não, porém, nos casos de possessão, pois osexorcismos sobre possessos são reservados, como ficou afirmado, aos sacerdotes autorizados.

Evitar uso de fórmulas solenes e aparência de carisma

Quanto ao modo de fazer os exorcismos, os leigos devem evitar o uso das fórmulas do Ritual Romano, reservadas apenas aos sacerdotes que receberam a devida licença do bispo, pois tal uso podia fazer crer que se tenciona fazer os exorcismos em nome da Igreja, ou seja, que

se está investido de um mandato eclesiástico.

É recomendada uma prudência particular para evitar toda solenidade e formalidade, inclusive a forma imperativa, sempre que isso possa fazer pensar que se trata de um carisma extraordinário, pois isso poderia causar estranheza a muitos, dada a raridade dos carismas hoje.

É preciso precaver-se ainda contra o perigo do escândalo, sobretudo nas possessões. Por isso, se se tratar de possessão diabólica do corpo, relativamente à qual tal perigo de escândalo e abuso pode ser maior, os fiéis devem abster-se de praticar os exorcismos (aliás, encontram-se proibidos de o fazer pela lei da Igreja), devendo dirigir-se a um sacerdote; podem, entretanto, fazer uma oração, pedindo a Deus – por intercessão de NossaSenhora, de São Miguel, dos anjos e dos santos — que libertem aquela pessoa do domínio de Satanás e impeçam

que o espírito maligno faça mal a outras pessoas. Também nos casos de infestação local ou pessoal grave, em que a atuação do demônio seja certa ou ao menos muito provável, ou haja manifestações extraordinárias, será mais prudente abster-se da fórmula imperativa, ao fazer

exorcismos privados. O mais recomendável seria chamar igualmente um sacerdote, sempre que possível.

Do mesmo modo, deve-se evitar qualquer procedimento que possa dar a impressão de vã presunção nos próprios méritos. O Pe. Guillerme Arendt (jesuíta belga, cuja orientação estamos seguindo neste item) observa que uma ordem dada ao demônio por um simples fiel, em

nome de Deus, com presunção de êxito sem ter em conta a vontade divina, pode constituir uma tentação a Deus, uma vez que é quase obrigá-Lo a interferir por respeito ao próprio Nome.

Mas quando não há essa presunção e se espera únicamente em Deus e no poder do nome e da cruz de Cristo, então não há esse perigo. Nesse caso, o que se está fazendo é apenas uma oração a Deus, que Ele atenderá segundo seus augustos desígnios. Trata-se também de um ato de fé e de esperança na promessa do Redentor de que aqueles que cressem teriam o poder de expulsar os demônios.

Quando se tratar somente de repelir a tentação do diabo pecar para pecar, é conveniente desprezar e calcar aos pés, pela virtude de Cristo, a soberba diabólica, com exprobação imperativa, de modo que o inimigo confundido seja posto em fuga em virtude de sua própria impotência. (Cf. 6. ARENDT, De Sacramentalibus, n. 311 apud Mons. c. BALDUCCI, Gli Indemoniati, pp. 99-100.)

“Orações de libertação”

Cabe aqui uma palavra sobre as chamadas orações de libertação.

“Orações de libertação — define Mons. Corrado Balducci – são aquelas com as quais pedimos a Deus, à Virgem, a São Miguel, aos Anjos e aos Santos sermos libertos das influências maléficas de Satanás. São muito distintas dos exorcismos, nos quais nos dirigimos ao diabo, ainda que em nome de Deus, da Virgem, etc.; distintas seja pelo destinatário direto, seja obviamente pela modalidade, pelo tom: deprecativo e suplicante no primeiro caso, imperativo e ameaçador no segundo”. (Mons. C.BALDUCCI, El diablo, p. 261.)

Nessas orações, em vez de se impor ao demônio, em nome de Jesus Cristo, que deixe aquela pessoa, aquelelugar, ou que cesse aquela situação, implora-se a Deus que — pelos méritos de Nosso Senhor, pela intercessão de Nossa Senhora, dos Anjos, dos Santos, de pessoas virtuosas

— nos proteja e liberte do jugo do Maligno (sem interpelar diretamente o demônio nem procurar conhecer sua identidade).

Devemos fazer essa súplica com humildade e confiança, pois Deus não o despreza um coração contrito e humilhado (SI 50, 19). Deus não deixará certamente denos atender, sobretudo se tivermos em vista antes de tudo a sua glória.

“Orar para sermos libertados do diabo, de suas tentações, de suas maquinações, enganos e influências — escreve Mons. Balducci – é louvável e não só recomendável, e sempre se fez assim, em privado e em público; esta petição, Jesus a incluiu na única oração que nos ensinou,

o Pai-Nosso; e se fazia assim, como ficou dito, no final de cada Missa com a oração a São Miguel Arcanjo”.

Porém, continua o Prelado, ultimamente, em algumas reuniões de grupos de oração e outras iniciativas privadas, nas quais se faziam orações de libertação, ás vezes se saía dos âmbito da simples oração e se chegava ao uso de verdadeiras fórmulas exorcísticas, com a interpelação

direta do demônio. Tais práticas determinaram a intervenção da Congregação para a Doutrina da Fé, com a Carta de 29 de setembro de 1985, várias vezes referida aqui.